Papa Leão XIV pede para perdoar sem medidas, mas ele mesmo não perdoou a FSSPX por consagrar bispos sem autorização
Papa pede que outros perdoem enquanto ele mesmo não perdoa

Em seu discurso do Angelus deste domingo, 13 de setembro, o Papa Leão XIV fez um forte apelo ao perdão. Comentando o Evangelho de São Mateus (18,21-35), no qual Pedro pergunta a Jesus quantas vezes deve perdoar seu irmão, o Pontífice recordou a resposta de Nosso Senhor: "Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete".
Por Vida e Fé Católica
A mensagem apresentada pelo Papa é clara: o cristão não deve estabelecer limites para o perdão. O rancor, segundo Leão XIV, produz conflitos, acusações, vinganças e consequências terríveis para a sociedade. Chegou inclusive a afirmar que o rancor "divide as famílias e desencadeia guerras", enquanto o perdão liberta e devolve a luz.
Não há dúvida de que o ensinamento de Nosso Senhor sobre o perdão é fundamental para a vida cristã. O próprio Cristo nos ensinou a rezar: "Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido" (Mt 6,12).
Mas existe uma questão que não pode deixar de ser colocada quando ouvimos esse apelo vindo do próprio Pontífice: como fica o perdão quando se trata daqueles que, dentro da própria Igreja, durante décadas procuraram um diálogo com Roma e pediram uma solução para sua situação, mas não foram verdadeiramente ouvidos?
O caso da FSSPX
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) nasceu em um contexto de profunda crise na Igreja, especialmente diante das mudanças ocorridas depois do Concílio Vaticano II e das transformações litúrgicas que atingiram a vida católica.
Um dos pontos mais delicados dessa história foi a questão das consagrações episcopais realizadas em Ecône, em 1988, por Dom Marcel Lefebvre.
A posição da FSSPX sempre esteve relacionada à necessidade de assegurar a continuidade de seu apostolado e a formação de novos sacerdotes e bispos segundo aquilo que considera a Tradição católica.
Entretanto, antes e depois das consagrações, houve diversas tentativas de diálogo e de encontrar uma solução que permitisse à Fraternidade continuar seu apostolado dentro de uma relação regularizada com Roma.
Mas essas solicitações nem sempre encontraram a acolhida que se poderia esperar.
E aqui aparece a grande contradição que este artigo pretende colocar diante do leitor.
De um lado, ouvimos que é necessário perdoar sem medida.
De outro, quando se trata da FSSPX, permanece durante décadas uma situação de desconfiança, restrições e medidas disciplinares que atingiram não apenas seus dirigentes, mas também milhares de fiéis que procuram viver a fé católica segundo a liturgia e a espiritualidade tradicionais.
Perdoar não significa esquecer a verdade
É importante esclarecer: o verdadeiro perdão cristão não significa declarar que o erro é correto, nem abandonar a verdade.
Nosso Senhor perdoou seus algozes na Cruz, mas nunca chamou o pecado de virtude. O cristão deve ser capaz de perdoar uma pessoa e, ao mesmo tempo, continuar combatendo o erro.
São Paulo é muito claro:
"Não vos deixeis vencer pelo mal, mas vencei o mal pelo bem."
(Romanos 12,21)
E também:
"Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outro."
(Colossenses 3,13)
Portanto, se o perdão é tão indispensável para a vida cristã, ele deveria ser especialmente procurado dentro da própria Igreja, entre aqueles que professam a mesma fé, receberam o mesmo Batismo e reconhecem o mesmo Senhor.
E a reconciliação com a Tradição?
A pergunta que surge é inevitável: por que é tão difícil perdoar e acolher aqueles que desejam conservar a liturgia tradicional?
A FSSPX não apareceu ontem. Sua história remonta a mais de meio século. Durante esse período, inúmeros sacerdotes foram formados, milhares de fiéis se aproximaram da vida sacramental e incontáveis famílias encontraram na liturgia tradicional um caminho de perseverança na fé.
Ao longo desses anos, houve também diferentes tentativas de aproximação com Roma.
Se o princípio apresentado pelo Papa Leão XIV é que o perdão deve ultrapassar todo limite, seria legítimo perguntar se esse princípio poderia também ser aplicado às relações entre Roma e aqueles católicos ligados à Tradição.
Será que não chegou o momento de deixar para trás décadas de desconfiança e procurar uma verdadeira reconciliação?
"Setenta vezes sete"
Quando Pedro perguntou a Jesus quantas vezes deveria perdoar, provavelmente imaginava estar sendo extremamente generoso ao sugerir sete vezes.
Cristo, porém, respondeu:
"Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete."
(Mateus 18,22)
A resposta de Nosso Senhor não estabelece simplesmente um número. Ela ensina que o perdão cristão não deve funcionar como uma contabilidade de ofensas.
É justamente por isso que as palavras de Leão XIV merecem ser levadas a sério.
Se o rancor é capaz de destruir famílias e desencadear guerras, como afirmou o Papa, também a falta de reconciliação dentro da própria Igreja pode prolongar feridas que deveriam ser curadas.
A Igreja precisa de reconciliação
O mundo olha para os cristãos e espera encontrar neles um testemunho de unidade.
O próprio Nosso Senhor rezou ao Pai:
"Que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti."
(João 17,21)
Essa unidade, entretanto, não pode ser construída simplesmente exigindo que um dos lados abandone aquilo que considera ser a fé recebida.
A verdadeira unidade católica deve estar fundada na verdade, na caridade e na busca sincera pela continuidade da fé apostólica.
A reconciliação não pode significar simplesmente submissão de um lado ao outro. Deve significar a procura da verdade e a superação das feridas.
O exemplo deveria começar dentro de casa
É muito fácil falar sobre perdão quando se dirige a mensagem ao mundo inteiro.
Mais difícil é aplicá-lo quando existem situações concretas, pessoas concretas e conflitos que se arrastam há décadas.
Por isso, talvez o apelo de Leão XIV possa ser levado ainda mais longe: que o perdão comece dentro da própria Igreja.
Que Roma possa olhar para aqueles que permanecem ligados à Tradição não simplesmente como um problema a ser administrado, mas como católicos que precisam ser escutados.
Que aqueles ligados à FSSPX também possam olhar para Roma não apenas através das feridas do passado, mas com espírito de oração e desejo de que um dia seja possível alcançar uma solução verdadeiramente católica.
A caridade exige que ninguém seja tratado como inimigo simplesmente porque possui uma compreensão diferente sobre questões discutidas dentro da Igreja.
As palavras do Papa Leão XIV sobre o perdão são belas e profundamente evangélicas. "Perdoar sem medida" é realmente aquilo que Nosso Senhor ensinou.
Mas justamente por isso elas nos permitem fazer uma pergunta incômoda, porém necessária:
Se devemos perdoar sem medida, por que não aplicar também essa regra às feridas existentes entre Roma e a FSSPX?
Durante décadas houve pedidos de diálogo, tentativas de aproximação e solicitações para encontrar uma solução para a situação dos bispos e do apostolado tradicional. Muitas dessas iniciativas não receberam a acolhida que seus responsáveis esperavam.
Agora que o Papa recorda ao mundo que "só o perdão liberta e devolve a luz", talvez seja o momento de transformar essas palavras em uma realidade concreta.
Não se trata de pedir que Roma abandone a verdade, nem que a FSSPX abandone aquilo que considera a Tradição da Igreja. Trata-se de perguntar se, depois de tantas décadas, não seria possível substituir a desconfiança pelo diálogo, a condenação pela compreensão e a distância pela reconciliação.
A Igreja precisa de paz.
E se o rancor, como disse o próprio Pontífice, pode dividir famílias e desencadear guerras, a Igreja não deveria ser precisamente o lugar onde o perdão cristão começa a vencer as antigas divisões?
Talvez o verdadeiro teste do ensinamento de hoje não esteja apenas em pedir ao mundo que perdoe.
Talvez esteja em ter a coragem de perdoar também dentro da própria casa. (Redação: Vida e Fé Católica)
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