Em nome da liberdade religiosa proíbem os católicos de pregar o Evangelho?
Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura

Há uma questão que precisa ser colocada com toda clareza: respeitar a liberdade religiosa significa deixar de anunciar Jesus Cristo? Para a fé católica tradicional, a resposta sempre foi negativa.
Por Vida e Fé Católica
O católico não pode obrigar ninguém a abraçar a fé. Não pode utilizar violência, fraude, ameaça ou qualquer forma de coação. Mas daí concluir que não devemos procurar a conversão daqueles que ainda não conhecem ou não professam a fé católica é algo completamente diferente.
A questão voltou ao centro das discussões após a publicação, em 16 de setembro de 2026, da Nota Um Caminho de Esperança, elaborada pelos Dicastérios para a Doutrina da Fé, para a Promoção da Unidade dos Cristãos e para o Diálogo Inter-religioso, por ocasião dos 60 anos de Nostra aetate. O documento foi aprovado pelo Papa Leão XIV em 22 de junho.
E é precisamente aqui que surge a preocupação de muitos católicos ligados à Tradição.
O que realmente diz a nova Nota?
É importante começar fazendo uma distinção. A Nota não afirma literalmente que os católicos estejam proibidos de evangelizar. Pelo contrário: o próprio documento afirma que o diálogo inter-religioso está "enraizado na missão evangelizadora" da Igreja e que não se trata de renunciar à verdade, mas de anunciá-la com estima, escuta e caridade.
O problema está sobretudo na maneira como o termo "proselitismo" é empregado.
No número 54, a Nota afirma que "o proselitismo, como única modalidade de encontro com o 'outro'", já não teria sentido no mundo contemporâneo, defendendo uma transformação das mentalidades em direção ao diálogo e à fraternidade.
A dificuldade, para uma perspectiva tradicional, é que a palavra proselitismo não é definida de maneira suficientemente precisa nesse trecho. E isso pode gerar uma consequência pastoral bastante diferente daquela que o texto talvez pretenda: o católico comum pode acabar entendendo que falar de conversão, convidar alguém ao Batismo ou procurar levar um amigo à Igreja é algo inadequado ou ultrapassado.
E aqui é necessário lembrar que a Igreja já havia tratado dessa questão de maneira muito mais precisa.
A importante distinção feita em 2007
Em 2007, a então Congregação para a Doutrina da Fé publicou a Nota Doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização.
O documento reconhecia que a palavra "proselitismo" havia adquirido, em tempos mais recentes, uma conotação negativa: passou a designar uma tentativa de obter adesão religiosa através de meios indignos do Evangelho, como coerção, fraude ou pressão indevida.
Mas isso não significava condenar a evangelização ou o desejo de que uma pessoa conheça e abrace a fé católica.
Pelo contrário. A Nota de 2007 afirma que a liberdade religiosa não deve produzir indiferença diante da verdade e que o amor leva os cristãos a anunciar a verdade que salva. Também afirma que a evangelização inclui o convite à conversão a Cristo e à fé católica.
Há, portanto, uma diferença fundamental:
Coagir alguém a converter-se é errado.
Convidar alguém livremente à conversão é evangelização.
Essa distinção não deveria desaparecer.
"Ide e fazei discípulos de todas as nações"
Antes de qualquer documento moderno sobre diálogo inter-religioso, existe uma ordem do próprio Nosso Senhor:
"Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei."
(Mt 28,19-20)
Cristo não enviou os Apóstolos simplesmente para estabelecer relações cordiais com todas as religiões.
Ele os enviou para fazer discípulos.
São Marcos registra:
"Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura."
(Mc 16,15)
E São Paulo é ainda mais contundente:
"Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!"
(1Cor 9,16)
Como pode então um católico considerar indesejável o desejo de que uma pessoa que ama conheça Jesus Cristo?
A liberdade religiosa não significa relativismo religioso
Aqui está um dos pontos mais importantes.
A liberdade religiosa significa que ninguém deve ser forçado a acreditar. A fé, por sua própria natureza, exige uma resposta livre da inteligência e da vontade.
Mas isso não significa que todas as religiões sejam igualmente verdadeiras.
A própria Igreja pode respeitar sinceramente uma pessoa de outra religião e, ao mesmo tempo, afirmar que Jesus Cristo é o Salvador e que a plenitude dos meios de salvação se encontra na Igreja fundada por Ele.
Essas duas coisas não são contraditórias.
Aliás, a própria Nota de 2026 reconhece que Nostra aetate procura conjugar respeito pelas outras religiões com a identidade cristã. O documento também rejeita expressamente a ideia de criar uma "grande religião mundial" na qual todas as crenças seriam niveladas.
Portanto, não seria correto afirmar que a Nota simplesmente ensina que "todas as religiões são boas e levam a Deus". Ela não diz isso.
A preocupação tradicional, entretanto, permanece: quando o diálogo passa a ocupar praticamente todo o espaço pastoral e o anúncio da conversão desaparece da linguagem cotidiana, pode-se produzir, na prática, um relativismo que o documento teoricamente rejeita.
O que aconteceu com o espírito missionário?
Durante séculos, homens e mulheres deixaram sua pátria, sua família e sua segurança para levar o Evangelho a povos que nunca haviam ouvido falar de Cristo.
Missionários atravessaram oceanos.
Entraram em regiões desconhecidas.
Aprenderam línguas.
Enfrentaram doenças, perseguições, pobreza e, muitas vezes, o martírio.
Por quê?
Porque acreditavam que o Evangelho era realmente uma Boa Nova que deveria ser anunciada a todos.
São Francisco Xavier morreu em 1552 às portas da China, depois de dedicar sua vida à evangelização da Ásia. São Bonifácio evangelizou povos germânicos. São Patrício levou o cristianismo à Irlanda. São José de Anchieta dedicou sua existência à evangelização no Brasil.
Esses homens não entendiam a missão como uma simples conversa entre religiões.
Eles queriam que as pessoas conhecessem Cristo.
"Quero que se convertam"
Imagine um católico que tenha um amigo muçulmano, judeu, budista ou ateu.
Esse católico pode respeitar profundamente seu amigo.
Pode ajudá-lo.
Pode defender sua liberdade religiosa.
Pode conversar civilizadamente sobre sua religião.
Mas também pode rezar todos os dias para que esse amigo conheça Jesus Cristo e receba a graça da conversão.
Isso não deveria ser motivo de vergonha.
Se uma mãe deseja que seu filho receba o Batismo, ela está praticando intolerância?
Se uma esposa pede durante anos pela conversão do marido, está praticando violência?
Se um jovem conversa com seu colega sobre Cristo e o convida para conhecer a Igreja, está cometendo uma falta contra a liberdade religiosa?
Não, desde que respeite integralmente a liberdade do outro.
O problema não está em desejar a conversão.
O problema estaria em tentar obtê-la por meios incompatíveis com a dignidade humana e com o Evangelho.
São Paulo não tinha medo de ser chamado de proselitista
São Paulo escreve:
"Como invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue?"
(Rm 10,14)
É difícil imaginar uma definição mais clara da necessidade da evangelização.
Se ninguém anuncia, como alguém ouvirá?
Se ninguém explica, como alguém conhecerá?
Se ninguém convida, como alguém poderá descobrir a fé?
O cristianismo jamais cresceu porque os Apóstolos decidiram simplesmente deixar cada povo com sua religião para evitar conflitos.
Eles anunciaram.
Pregaram.
Batizaram.
Catequizaram.
E, quando necessário, deram a própria vida.
Diálogo não pode significar silêncio
O diálogo inter-religioso pode possuir uma finalidade legítima.
Conversar com o outro pode favorecer a paz.
Conhecer outra religião pode eliminar preconceitos.
Cooperar na defesa da vida, da família, da liberdade religiosa e da paz pode ser uma coisa boa.
Mas diálogo não pode significar a suspensão da missão evangelizadora.
Um médico que conhece a doença do paciente não demonstra amor escondendo o diagnóstico.
Da mesma forma, o católico que acredita possuir uma verdade recebida de Cristo não demonstra amor escondendo-a para evitar constrangimento.
A caridade não exige silêncio.
Exige verdade e respeito.
O risco de uma fraternidade sem conversão
Existe ainda outro perigo.
Quando se fala constantemente em fraternidade, paz, convivência e respeito, mas quase nunca se fala em pecado, conversão, Batismo, graça, sacramentos e salvação, o cristianismo corre o risco de ser reduzido a um programa de convivência social.
Nesse caso, o diálogo deixa de ser um meio para aproximar as pessoas da verdade e passa a ser um fim em si mesmo.
A Igreja, porém, não foi fundada por Cristo simplesmente para tornar o mundo mais educado.
Foi fundada para levar as almas a Deus.
"Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim."
(Jo 14,6)
Essa frase não pertence a uma determinada época histórica.
Não pertence à Idade Média.
Não pertence ao período das grandes missões.
Não pertence ao século XIX.
É uma palavra de Nosso Senhor.
O que significa, então, evangelizar hoje?
Evangelizar não significa perseguir quem pensa diferente.
Não significa ridicularizar outras religiões.
Não significa obrigar ninguém.
Não significa retirar a liberdade de consciência.
Significa apresentar Cristo.
Significa explicar a fé.
Significa convidar ao Batismo.
Significa ensinar a doutrina católica.
Significa rezar pela conversão.
Significa dar testemunho.
Significa dizer ao outro, com caridade:
"Eu encontrei algo que considero o maior bem da minha vida e quero que você também o conheça."
A própria Nota de 2007 dizia que toda pessoa tem o direito de ouvir o Evangelho e que esse direito corresponde ao dever de evangelizar.
Um alerta para os católicos tradicionais
É justamente por isso que os católicos ligados à Tradição precisam permanecer atentos.
Não devemos rejeitar o diálogo verdadeiro.
Mas também não podemos aceitar que a palavra "diálogo" se transforme em sinônimo de silêncio.
Não devemos confundir respeito com relativismo.
Não devemos confundir liberdade religiosa com indiferença religiosa.
Não devemos confundir fraternidade com a ideia de que todas as religiões são equivalentes.
E, sobretudo, não devemos ter vergonha de dizer que desejamos a conversão das pessoas que amamos.
A Nota Um Caminho de Esperança afirma que o diálogo deve permanecer ligado à missão evangelizadora e que não se trata de renunciar à verdade. Isso é importante e deve ser reconhecido.
Mas precisamente por isso, a missão precisa continuar sendo visível na prática pastoral.
Liberdade para crer, liberdade para anunciar
A Igreja pode e deve defender a liberdade religiosa.
Mas essa liberdade possui duas faces: ninguém deve ser obrigado a acreditar e ninguém deve ser impedido de anunciar aquilo em que acredita.
O católico tem o direito de dizer ao mundo que Jesus Cristo é o Senhor.
Tem o direito de convidar alguém ao Batismo.
Tem o direito de ensinar o Catecismo.
Tem o direito de rezar pela conversão de um amigo.
Tem o direito — e, segundo a própria compreensão católica da missão, o dever — de anunciar o Evangelho.
A Igreja não pode abandonar o mandato recebido de Cristo em nome de uma compreensão equivocada da liberdade.
Porque Nosso Senhor não disse:
"Ide pelo mundo e respeitai todas as religiões, sem procurar convertê-las."
Disse:
"Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações, batizando-as..."
(Mt 28,19)
E São Paulo acrescentou:
"Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!"
(1Cor 9,16)
Por isso, o católico pode dizer, sem vergonha e sem agressividade:
Quero que aqueles que amo conheçam Cristo. Quero que recebam o Batismo. Quero que conheçam a Confissão, a Eucaristia e a graça de Deus. Não quero obrigá-los. Quero convencê-los pela verdade, pela caridade, pela oração e pelo testemunho.
Isso não é violência.
Isso é evangelização.
E uma Igreja que deixa de anunciar aquilo que recebeu de seu próprio Senhor corre o risco de preservar apenas a aparência do diálogo, enquanto perde justamente aquilo que lhe foi confiado: a missão de levar o Evangelho a todas as nações. (Redação: Vida e Fé Católica)
Leia também







