"A Missa é o coração da cultura cristã"

21/08/2026

Um chamado para reconstruir o cristianismo a partir do altar

Rubén Peretó explica em conferência que o resgate da cultura cristã não começará na política ou nas instituições, mas na liturgia e no culto a Deus. Seguindo João Sênior, fala da importância da Missa, dos mosteiros contemplativos e dos sinais sacramentais.

Por INFOCATOLICA

(InfoCatólica) Por ocasião dos 60 anos da Associação Litúrgica Magnificat, o professor Rubén Peretó Rivas proferiu a conferência em 8 de agosto em Santiago, Chile «A Missa, coração da cultura cristã», no qual defendia uma tese tomada fundamentalmente de pensamento de John Senior: A cultura cristã nasce do culto cristão e tem seu centro na Santa Missa.

Peretó, que é argentino, professor de História da Filosofia Medieval da Universidade Nacional de Cuyo e diretor do Centro Internacional de Estudos Litúrgicos, colocou uma questão aparentemente simples desde o início: o que é cultura cristã? Diante das respostas que a reduzem a uma série de valores, obras artísticas ou instituições históricas, recuperou a resposta provocativa de John Senior: «Essencialmente, a Missa»

Uma civilização construída em torno do altar

Segundo o conferencista, não se trata de uma afirmação meramente piedosa. Durante séculos, a sociedade cristã organizou boa parte de sua vida em torno da adoração: a arquitetura para abrigar dignamente o altar, a música para acompanhar a oração, a arte para representar os mistérios da fé e até mesmo a organização do tempo através das festas, do domingo e do Angelus.

A Missa, portanto, não era apenas mais um elemento dentro da cultura medieval, mas sim o seu centro organizador. Peretó descreve o antiga sociedade cristã como um povo orientado para um centro comum: o altar onde o sacrifício de Cristo está presente.

O professor frisou ainda que a cultura não é um simples adorno de fé. Uma vez que o homem conhece também pelos sentidos e pela imaginação, uma série de elementos materiais como sinos, procissões, incensos, imagens, músicas e gestos litúrgicos contribuiu para tornar perceptível um mundo sobrenatural que de outro modo poderia ser reduzido a conceitos abstratos.

«A pessoa de Cristo foi removida de nossa experiência»

A segunda parte da conferência abordou o causas da crise da cultura cristã.  Seguindo Senior, autor do magnífico livro A morte da cultura cristã, Peretó colocou a origem do processo na progressiva separação entre a vida humana e a presença de Deus: o racionalismo, o liberalismo e o modernismo contribuíram para tornar Cristo primeiro em ideia, depois em emoção e finalmente em símbolo. O resultado é uma sociedade em que o sagrado deixou de estruturar a experiência cotidiana.

O palestrante relacionou essa perda do sentido do sagrado com vários sintomas da crise cultural contemporânea: o enfraquecimento da família e a fertilidade a perda do sentido da beleza e uma concepção de vida humana cada vez mais desprendida de seu caráter de dom.

Uma crítica à banalização da liturgia

Peretó também dedicou uma parte particularmente crítica à situação litúrgica após o Concílio Vaticano II. Em sua opinião, certas aplicações da reforma litúrgica introduziram música leve, improvisação e criatividade excessiva, enfraquecendo a percepção do mistério.

Nessa perspectiva, defendeu o recuperação da liturgia tradicional do rito romano e do canto gregoriano.O. Enfim, mesmo do ponto de vista puramente cultural, a liturgia da Missa é uma das mais altas expressões da civilização cristã. O argumento central não é simplesmente estético. O silêncio, o latim, o canto gregoriano, o incenso, as genuflexões e a orientação da celebração formariam, segundo Peretó, uma pedagogia que ensinava ao homem estava acontecendo antes dele. A liturgia, explicou o conferencista, pode ensinar pelos sentidos o que o intelecto ainda não é capaz de explicar plenamente: a presença real de Cristo no altar.

«A restauração começa no altar»

A consequência prática de todo o raciocínio é contundente: a restauração da cultura cristã deve começar no culto. Peretó citou o cardeal nesse contexto José Ratzinger e sua conhecida declaração sobre a importância decisiva da liturgia para a vida da Igreja. A renovação cristã, sustenta, não pode ser reduzida a programas políticos, iniciativas culturais ou estratégias de comunicação. Tudo isso deve estar fundamentado na oração e, em especial, na Santa Missa.

conferência propôs ainda o resgate de uma vida cristã que voltasse a santificar tempo através do Ofício Divino, do Ângelus, do Rosário, da Via Crucis, da adoração eucarística e de outras devoções tradicionais. Junto a isso, alegou a importância do mosteiros contemplativos, lembrando o papel decisivo que os monges tiveram na formação do cristianismo europeu.

«Não antiquários de uma liturgia, mas construtores de um cristianismo»

O final da conferência introduziu um alerta especialmente significativo para aqueles que amam a liturgia tradicional, mas correm o risco de se preocupar mais em ter razão do que em viver a caridade cristã.

A liturgia tradicional, disse o conferencista, não foi dado para os católicos terem «para estarem certos, mas para aprender a amar». Quem sai da Missa sem maior caridade para com sua família e seus inimigos não compreendeu o que acaba de celebrar.

Nesse sentido, a mensagem final da conferência pode ser que não se trata de preservar peças de museu, mas de reconstruir uma cultura cristã viva. Se a cultura vem do culto, como Senior ensina, os cristãos não são chamados para serem «antiquários de uma liturgia, mas construtores de um cristianismo». (Fonte: INFOCATOLICA)

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