
O pecado comparado entre os catecismos tradicionais e o catecismo de João Paulo II
O que dizem os catecismos sobre o pecado

Quando um católico de hoje ouve falar em pecado e quando seu bisavô ouvia a mesma palavra, o termo é exatamente o mesmo. Mas a explicação que cada um recebe pode ser bastante diferente.
Por Vida e Fé Católica
Durante séculos, a catequese católica apresentou o pecado de maneira direta: existe uma Lei de Deus, existem mandamentos, existem atos objetivamente bons ou maus e existe uma responsabilidade pessoal diante de Deus. O pecado mortal priva a alma da graça santificante e, se não houver arrependimento e perdão, conduz à condenação eterna.
Depois do Concílio Vaticano II, entretanto, a linguagem catequética passou por uma grande transformação. O Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1992 durante o pontificado de João Paulo II, procurou apresentar a doutrina católica de maneira orgânica, reunindo Escritura, Padres da Igreja, liturgia e ensinamentos do Magistério e explicitamente colocando essa síntese "à luz do Concílio Vaticano II e de toda a Tradição da Igreja".
A questão que merece ser examinada é justamente esta: o que aconteceu com a maneira de ensinar o pecado?
A doutrina fundamental desapareceu? Não. O Catecismo de 1992 continua ensinando claramente o pecado mortal, a perda da graça e a possibilidade da condenação eterna. Mas a maneira de apresentar o problema mudou consideravelmente. E essa mudança de linguagem e de ênfase pode produzir efeitos muito diferentes na catequese.
Três catecismos e três maneiras de ensinar
Para compreender essa mudança, é útil colocar lado a lado três importantes instrumentos da catequese católica.
O Catecismo Romano ou Catecismo do Concílio de Trento
Publicado em 1566, depois do Concílio de Trento, o chamado Catecismo Romano ou Catecismo de Trento recebeu oficialmente o título Catechismus ex Decreto Concilii Tridentini ad Parochos. Seu objetivo principal era oferecer aos párocos uma síntese segura da doutrina que deveria ser ensinada aos fiéis. A própria Santa Sé reconhece sua importância como uma obra de primeiro nível na transmissão da doutrina cristã.
Seu contexto era muito diferente do atual. A Igreja enfrentava a ruptura protestante e precisava reafirmar com precisão doutrinas fundamentais sobre os sacramentos, a graça, a justificação, a Igreja e a vida moral.
Era, portanto, uma catequese fortemente doutrinal, sistemática e destinada à formação dos pregadores.
O Catecismo de São Pio X
No início do século XX encontramos uma forma muito mais simples e popular de apresentar a mesma doutrina.
O Catecismo de São Pio X utilizava perguntas e respostas curtas, permitindo que crianças e adultos aprendessem de memória os principais elementos da fé.
Quando pergunta o que é pecado mortal, por exemplo, responde de maneira extremamente direta:
"Pecado mortal é uma transgressão da Lei divina."
E acrescenta que, além da matéria grave, são necessárias plena consciência e vontade deliberada.
A vantagem desse método era evidente: o fiel sabia exatamente o que é o pecado, quando ele é grave e quais consequências produz.
Não era uma reflexão psicológica sobre o pecador. Era uma formação moral destinada a formar a consciência.
O Catecismo da Igreja Católica de 1992
Depois do Concílio Vaticano II, surgiu uma nova necessidade de apresentar a doutrina católica em uma grande síntese.
O Catecismo da Igreja Católica foi publicado em 1992 e destinou-se principalmente aos bispos, sacerdotes, catequistas e responsáveis pela formação, servindo como referência para a elaboração dos catecismos nacionais.
Seu formato é muito diferente do antigo catecismo de perguntas e respostas.
Ele procura apresentar a doutrina dentro de uma visão mais ampla, relacionando fé, moral, consciência, liberdade, graça, sociedade, dignidade humana e vida cristã.
É nesse contexto que também devemos ler sua exposição sobre o pecado.
O que é o pecado?
Nos catecismos tradicionais, a explicação podia ser resumida de maneira bastante objetiva.
O Catecismo de São Pio X ensina que o pecado atual é aquele que o homem, depois de chegar ao uso da razão, comete por sua própria vontade. Divide-o em mortal e venial. O pecado mortal é uma transgressão da Lei divina que faz o homem faltar gravemente aos seus deveres para com Deus, o próximo ou consigo mesmo.
A estrutura é simples:
Lei de Deus → transgressão → culpa → perda da graça → necessidade de arrependimento e confissão.
O Catecismo de 1992 não abandona essa concepção.
Pelo contrário, seu número 1850 afirma:
"O pecado é uma ofensa a Deus."
E explica que ele é também uma desobediência e uma revolta contra Deus.
Portanto, seria incorreto dizer que o Catecismo de João Paulo II deixou de considerar o pecado uma ofensa a Deus ou uma desobediência à Lei divina.
Mas há uma diferença importante.
O novo Catecismo apresenta o pecado através de várias perspectivas simultâneas.
Ele afirma que:
"O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a reta consciência."
E também que ele constitui uma falha no amor verdadeiro para com Deus e para com o próximo.
Ou seja, em vez de começar exclusivamente pela transgressão da Lei, a explicação se amplia para incluir a consciência, a verdade, a razão, a liberdade, o amor e as consequências sociais.
Essa ampliação pode ser teologicamente explicativa, mas também modifica a maneira como o fiel percebe o pecado.
O pecado mortal: aqui a doutrina permanece
É justamente neste ponto que precisamos fazer uma distinção importante.
À primeira vista, pode parecer que o Catecismo de 1992 teria relativizado o pecado mortal. Porém, seu texto é bastante explícito.
O número 1857 estabelece:
"Para que um pecado seja mortal, requerem-se, em simultâneo, três condições."
São elas:
matéria grave, plena consciência e consentimento deliberado.
Isso corresponde substancialmente à fórmula tradicional.
São Pio X ensinava:
- matéria grave;
- plena advertência;
- perfeito consentimento da vontade.
O Catecismo de 1992 ensina:
- matéria grave;
- plena consciência;
- consentimento deliberado.
Portanto, não houve uma simples eliminação das três condições tradicionais.
A diferença aparece principalmente na explicação que vem depois.
A questão dos atenuantes
É aqui que aparece uma das diferenças mais importantes de linguagem.
O Catecismo de 1992 dedica atenção especial às circunstâncias que podem diminuir a imputabilidade de um ato.
O número 1860 afirma que a ignorância involuntária pode diminuir ou até remover a imputabilidade de uma falta grave. Também menciona sentimentos, paixões, pressões externas e determinadas condições patológicas como fatores capazes de diminuir a voluntariedade e a liberdade do ato.
Isso não significa que a Igreja tenha declarado que o pecado deixou de existir.
Significa que é necessário distinguir duas perguntas:
O ato é objetivamente grave?
e
A pessoa é plenamente responsável por tê-lo cometido?
A tradição moral católica sempre reconheceu essa distinção. O Catecismo de 1992 simplesmente desenvolve essa questão de maneira muito mais extensa.
O problema pastoral aparece quando essa segunda parte passa a ocupar quase toda a pregação.
Se o fiel ouve continuamente que existem ignorância, circunstâncias, condicionamentos, paixões, pressões psicológicas e outros fatores capazes de diminuir a culpa, mas ouve pouco sobre a gravidade objetiva do pecado, pode acabar formando uma consciência na qual quase todo pecado parece possuir uma justificativa.
E isso é muito diferente de ensinar que todo pecado grave deixa de ser grave.
O pecado não é apenas uma "fraqueza"
Aqui está talvez um dos pontos mais importantes para a catequese.
A linguagem contemporânea frequentemente substitui a palavra pecado por expressões como:
- fraqueza;
- erro;
- dificuldade;
- limitação;
- problema pessoal;
- condição;
- imperfeição;
- momento de fragilidade.
Algumas dessas expressões podem descrever aspectos verdadeiros da condição humana. Mas nenhuma delas deve fazer desaparecer a realidade fundamental: o homem pode escolher livremente fazer aquilo que Deus proíbe.
São Paulo é absolutamente direto:
"Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores possuirão o Reino de Deus."
(1Cor 6,9-10)
E imediatamente acrescenta:
"E tais fostes alguns de vós. Mas fostes lavados, fostes santificados, fostes justificados."
(1Cor 6,11)
A passagem mostra duas coisas simultaneamente: a gravidade do pecado e a possibilidade da conversão.
Não existe verdadeira misericórdia quando se elimina a realidade daquilo de que o pecador precisa ser perdoado.
A dimensão social do pecado
Outra diferença perceptível no Catecismo de 1992 é a atenção dada à dimensão social.
O Catecismo afirma que o pecado é sempre um ato pessoal, mas explica também que os pecados pessoais podem produzir situações e estruturas contrárias ao bem, falando em "estruturas de pecado" e, em sentido análogo, em "pecado social".
Isso precisa ser entendido corretamente.
A expressão não significa que uma estrutura tenha uma alma que possa se confessar.
O próprio Catecismo começa afirmando:
"O pecado é um ato pessoal."
Depois explica que os homens podem cooperar com os pecados de outros e que os pecados pessoais podem gerar situações sociais de injustiça.
A preocupação tradicional, porém, permanece especialmente concentrada na responsabilidade individual:
eu pequei.
Eu menti.
Eu roubei.
Eu blasfemei.
Eu pratiquei uma injustiça.
Eu pequei contra a pureza.
Eu faltei à caridade.
Eu desobedeci à Lei de Deus.
É justamente essa consciência pessoal que leva o homem ao confessionário.
O pecado diante de Deus
Talvez seja aqui que a comparação se torne mais profunda.
Nos antigos catecismos, o pecado aparece constantemente relacionado com a Lei de Deus, com a ofensa cometida contra Deus e com a perda da graça.
No Catecismo de 1992, a mesma realidade é frequentemente apresentada através da linguagem da relação, do amor e da comunhão.
Mas essas duas linguagens não são necessariamente contraditórias.
O próprio Catecismo de 1992 diz:
"O pecado é uma ofensa a Deus."
E cita o Salmo:
"Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o mal diante dos teus olhos."
(Sl 51,6)
Portanto, mesmo dentro da linguagem posterior ao Concílio, o pecado continua sendo uma realidade objetiva diante de Deus.
A diferença está principalmente na ênfase pedagógica.
O temor do inferno desapareceu?
Também aqui é necessário fazer uma distinção.
Pode-se afirmar que muitas pregações contemporâneas falam menos sobre inferno do que a catequese tradicional costumava falar.
Mas não se pode afirmar que o Catecismo de 1992 tenha eliminado o inferno.
Ele afirma explicitamente que o pecado mortal, se não for redimido pelo arrependimento e pelo perdão de Deus, conduz à morte eterna.
Em outro ponto, o Catecismo afirma:
"Morrer em pecado mortal, sem ter-se arrependido dele e sem acolher o amor misericordioso de Deus, significa permanecer separado dele para sempre."
E identifica essa separação definitiva como o inferno.
Portanto, a doutrina continua presente.
A questão é outra: com que frequência ela é pregada?
Uma coisa é possuir uma doutrina no livro.
Outra coisa é fazer dessa doutrina parte efetiva da formação da consciência dos fiéis.
"Temor de Deus" e misericórdia
A catequese tradicional frequentemente começava pela gravidade do pecado.
O homem deveria compreender:
Deus me deu uma Lei. Eu sou livre. Posso desobedecer. Minha desobediência pode destruir a graça em minha alma. Preciso arrepender-me e procurar a confissão.
A catequese contemporânea tende a apresentar mais frequentemente o caminho inverso:
Deus me ama. Sou chamado à conversão. Minha consciência precisa ser formada. Deus oferece misericórdia e deseja minha volta.
As duas coisas podem existir juntas.
O próprio Catecismo de 1992 afirma que a misericórdia não elimina a necessidade de reconhecer o pecado. Ao contrário, ensina que é preciso admitir a própria falta para receber a misericórdia de Deus.
Essa é uma verdade profundamente bíblica.
São João escreve:
"Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós."
E acrescenta:
"Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar."
(1Jo 1,8-9)
Primeiro vem o reconhecimento do pecado.
Depois vem o perdão.
Sem pecado, a misericórdia torna-se uma palavra vazia.
O perigo pastoral da relativização
É justamente aqui que se encontra uma das maiores preocupações daqueles que preferem a catequese tradicional.
O problema não está necessariamente em afirmar que circunstâncias podem diminuir a culpa. Isso faz parte da própria doutrina moral católica.
O problema aparece quando o fiel aprende tão bem a procurar circunstâncias atenuantes que deixa de perguntar:
"Aquilo que fiz é pecado?"
Em seu lugar, passa a perguntar apenas:
"Será que eu realmente tive culpa?"
São perguntas diferentes.
A primeira forma a consciência moral diante da Lei de Deus.
A segunda pode transformar-se, quando mal utilizada, em uma busca permanente por justificativas.
O Catecismo de 1992, entretanto, também alerta contra isso. Ele afirma que a ignorância fingida e o endurecimento do coração não diminuem a culpa, mas aumentam o caráter voluntário do pecado.
Portanto, não seria correto usar o Catecismo de 1992 para justificar a ideia de que "ninguém tem culpa de nada".
O texto não ensina isso.
Uma comparação resumida
Aspecto Catecismos tradicionais Catecismo de 1992
Definição do pecado Transgressão da Lei de Deus Ofensa a Deus, contra a razão, verdade e reta consciência
Relação com Deus Desobediência e ofensa Ofensa, desobediência e ruptura do amor
Pecado mortal Matéria grave + advertência + consentimento Matéria grave + plena consciência + consentimento deliberado
Consequência Perda da graça e merecimento do inferno Perda da graça e possibilidade de condenação eterna
Responsabilidade Ênfase no ato voluntário Maior desenvolvimento das circunstâncias que podem diminuir a imputabilidade
Dimensão pessoal Muito acentuada Mantida explicitamente
Dimensão social Menos desenvolvida nos catecismos populares Estruturas e consequências sociais do pecado recebem tratamento próprio
Método Perguntas, respostas e fórmulas Exposição doutrinal ampla
Ênfase pastoral Mandamento, pecado, arrependimento e confissão Pecado, consciência, conversão, graça e misericórdia
Essa comparação mostra algo importante: não estamos diante de duas religiões diferentes no que diz respeito ao pecado mortal.
A diferença está sobretudo na maneira de organizar e apresentar a doutrina.
O que um pregador deve ensinar?
Se a finalidade da catequese é conduzir o homem à salvação, talvez não seja necessário escolher entre justiça e misericórdia.
É preciso ensinar as duas.
O fiel precisa saber que:
Deus é misericordioso.
Mas também precisa saber que:
Deus é justo.
Precisa saber que pode ser perdoado.
Mas também precisa saber que precisa arrepender-se.
Precisa conhecer a misericórdia.
Mas também precisa conhecer o pecado.
Precisa saber que existem circunstâncias capazes de diminuir a culpa.
Mas também precisa saber que não se pode transformar cada pecado em uma circunstância atenuante.
Precisa saber que Deus perdoa.
Mas precisa lembrar que Cristo disse:
"Vai e não peques mais."
(Jo 8,11)
Esta pequena frase contém uma verdadeira catequese.
Cristo não diz apenas: "Eu te perdoo."
Ele também diz:
"Não peques mais."
O pecado continua sendo pecado
Talvez essa seja a principal conclusão que se possa tirar da comparação.
O Catecismo de São Pio X apresenta o pecado com uma clareza quase escolar: é uma transgressão da Lei divina; o pecado mortal exige matéria grave, plena consciência e consentimento deliberado; priva a alma da graça e coloca o homem em perigo de condenação eterna.
O Catecismo de 1992 utiliza uma linguagem muito mais ampla. Fala de razão, verdade, consciência, amor, liberdade, responsabilidade, sociedade, conversão e misericórdia.
Mas, quando se chega aos números 1857 a 1861, encontramos novamente as três condições do pecado mortal, a perda da graça santificante e a possibilidade da morte eterna.
Assim, talvez a questão mais importante não seja simplesmente perguntar se o Catecismo novo nega a doutrina tradicional.
Ele não a nega nesses pontos.
A questão pastoral é perguntar qual aspecto fica mais gravado na consciência do fiel.
Se ele aprende apenas que Deus é misericordioso, pode esquecer que precisa converter-se.
Se aprende apenas que existe condenação, pode esquecer que Deus deseja salvá-lo.
A verdadeira catequese precisa apresentar o quadro inteiro.
São Paulo resume isso de maneira admirável:
"Operai a vossa salvação com temor e tremor."
(Fl 2,12)
Mas o mesmo Apóstolo também afirma:
"Deus é quem opera em vós o querer e o realizar, segundo a sua vontade."
(Fl 2,13)
Temor e confiança.
Justiça e misericórdia.
Lei e graça.
Pecado e conversão.
Nenhum desses elementos pode ser simplesmente apagado sem empobrecer a mensagem cristã.
O grande perigo para uma época que já perdeu o sentido do pecado não é apenas possuir um catecismo diferente do que possuíam nossos antepassados. É chegar ao ponto em que o homem já não consegue sequer reconhecer que pecou.
E, se o homem não reconhece o pecado, também deixa de compreender por que precisa da Confissão.
Se não compreende por que precisa da Confissão, deixa de compreender a Cruz.
E se deixa de compreender a Cruz, torna-se cada vez mais difícil compreender a própria necessidade de um Salvador.
"Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos."
(1Jo 1,8) (Redação: Vida e Fé Católica)






