
Depois de ultrapassar um milhão de espectadores, a FSSPX estreia a segunda parte de “Traditio”: o coração da missão católica
A beleza visual do documentário é extraordinária

A segunda parte do documentário sobre a Fraternidade Sacerdotal São Pio. O faz com uma força narrativa e qualidade cinematográfica que surpreende novamente desde os primeiros minutos.
Por Miguel Escrivá
A obra começa em Meylan, na França, com um plano de uma fonte de onde brota água, coroada por uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. Há muita teologia em muitos dos planos do documentário. Aparece um padre que nos conta como passou duas décadas como missionário nas Filipinas e que hoje, voltando para sua terra, leva uma vida contemplativa. O seu testemunho experimentado, a sua nostalgia e a sua fé profunda servem de porta de entrada e de saída para uma realidade desconhecida por muitos católicos: a dos sacerdotes da Fraternidade que trabalham em alguns dos lugares mais difíceis do mundo.
A câmera acompanha o espectador até o próprio coração das missões. Transita em veículos precários junto a altares portáteis em malas, atravessa estradas intransitáveis, adentra regiões atingidas pela malária e dengue, mostra capelas improvisadas, hotéis convertidos em locais de culto e comunidades que vivem distantes de qualquer estrutura eclesial estável. Filipinas, Quênia, Nigéria, República Dominicana e Japão são os cenários onde as câmaras seguem um trabalho apostólico que impressiona tanto pelo alcance quanto pela simplicidade.
A beleza visual do documentário é extraordinária. Não é apenas uma fotografia impecável ou quadros cuidadosamente construídos. O que é realmente notável é a capacidade da obra de apresentar ao espectador a intimidade espiritual da vida missionária. Não há artifícios nem triunfalismos. Os sacerdotes mostram-se cansados, preocupados, suando sob climas extremos, enfrentando dificuldades constantes e condições duradouras que poucos aceitariam se não tivessem a Graça sobrenatural.
É justamente por isso que o documentário é tão convincente. Porque transmite autenticidade. As estradas destruídas, cidades deterioradas, infraestrutura precária e inúmeras dificuldades materiais não são um enfeite. são o cenário cotidiano em que esses sacerdotes desenvolvem seu apostolado.
Um dos aspectos mais marcantes é ver que a metodologia dessas missões não é novidade. Não há estratégias pastorais sofisticadas nem programas complexos. O que aparece uma e outra vez é o método católico usual: pregação, catecismo, sacramentos e Missa. O documentário mostra claramente que a Fraternidade continua convencida de que a evangelização nasce justamente a partir dela. E é difícil não se sentir desafiado ao contemplar a eficácia com que a simplicidade transforma comunidades inteiras.
A missão no Japão ajuda a conectar a história do documentário com o arquétipo evangelizador. Ali, a referência a São Francisco Xavier aparece naturalmente e ajuda a conectar a obra atual com a grande tradição missionária da Igreja. O sacerdote encarregado dessa missão oferece também uma reflexão particularmente lúcida sobre a situação espiritual do seu país e sobre o profundo significado de evangelizar em contextos onde a secularização das últimas décadas fez estragos.
Ao longo de Traditio surge outra pergunta inevitável. A Fraternidade aparece como uma instituição que continua desenvolvendo intensa atividade evangelizadora em numerosos países enquanto continua sujeita a restrições, incompreensões e conflitos com parte da hierarquia eclesiástica. O filme não faz desse fato seu tema principal, mas também não o esconde. Os próprios padres e fiéis relatam expulsões das capelas, dificuldades impostas pelos bispos e obstáculos que encontram no exercício do ministério.
É precisamente aí que «Traditio» levanta uma questão desconfortável. É difícil entender por que aqueles que dedicam a vida a carregar os sacramentos, a cuidar dos doentes, a celebrar funerais, a catequizar crianças e a evangelizar regiões remotas continuam a ser tratados como uma realidade marginal dentro da Igreja. A questão torna-se ainda mais marcante quando se observa a abrangência específica de seu trabalho e o número de fiéis que dependem espiritualmente desses sacerdotes.
O documentário nos permite medir algo que muitas vezes passa despercebido. Uma fraternidade profundamente voltada para os sacramentos precisa de sacerdotes e precisa de bispos. Atrás de cada Missa celebrada numa aldeia remota, atrás de cada batismo, de cada confissão e de cada doente cuidado, há uma estrutura humana que sustenta uma tarefa imensa. E aquela realidade aparece constantemente na tela.
A conclusão acaba se impondo. Para além de qualquer debate canônico ou das diferentes interpretações de certos textos do Concílio Vaticano II, o que o espectador contempla é uma obra profundamente católica e voltada para a salvação das almas. Uma obra realizada com sacrifício, perseverança e uma fé que dificilmente poderia ser sustentada sem profunda convicção sobrenatural.
Mais de um milhão de pessoas viram a primeira parte desta produção. No entanto, essa segunda parcela tem uma força especial. Sai das salas de aula e dos seminários para mostrar o campo de batalha espiritual onde está em jogo o destino de inúmeras almas. E ao fazê-lo recorda algo que muitos católicos parecem ter esquecido: que a essência da missão continua a mesma de séculos atrás. Trazer Cristo, pregar o Evangelho e administrar os sacramentos.
O documentário expressa sem discursos grandiosos. Simplesmente mostra homens que entregaram suas vidas a essa tarefa. E no final deixa um sentimento difícil de ignorar: talvez a Igreja precise olhar precisamente para lá novamente para lembrar quem é e qual é a sua missão.
Permita-nos uma mensagem especial a todos os bispos que nos leem e a todos os de Roma e do Vaticano que nos honram todos os dias com sua visita. Por favor, assistam a este documentário. Não tenha pressa e veja, por favor. (Fonte: INFOVATICANA)





