Fátima, o medo do Inferno e o desejo do Céu
A necessidade de arrependimento também nasce do medo do Inferno

A mensagem de Fátima não se reduz aos três segredos que a Virgem revelou a Lucía, Jacinta e Francisco. A mensagem inclui muitas outras coisas, incluindo as orações que a Santíssima Virgem ensinou pessoalmente aos três pastorinhos. Um deles acompanha todos os dias a oração do Santo Rosário. É aquela que diz: «Oh meu Jesus, perdoa-nos os nossos pecados, livra-nos do fogo do Inferno, leva todas as almas para o Céu, especialmente as mais necessitadas da tua misericórdia».
Por Rberto de Mattei
As palavras desta oração, ou melhor, jaculatória, porque pode ser elevada a Deus a qualquer hora do dia, é um compêndio de ensinamentos teológicos e pastorais em que todo bispo e sacerdote deve buscar inspiração, a começar pelo Supremo Pastor da Igreja, isto é, o Romano Pontífice. Não foi nem mais nem menos a própria Virgem quem ensinou os três pastorinhos a dirigir-se ao Senhor, e suas palavras são dirigidas a toda a humanidade para salvá-la dos perigos que a ameaçam. Desta forma, a Virgem Maria destaca mais uma vez sua missão de Medianeira Universal de todas as graças. Ela é uma Mediadora que não ofusca o papel primordial do Supremo Mediador, que é Jesus Cristo. Pelo contrário, nos ajuda a ver como podemos nos unir mais estreitamente com Ele. A jaculatória de Fátima começa justamente pelo nome de Jesus, o único Salvador da humanidade. Como está escrito, «não há salvação em nenhum outro, pois sob o
céu não há outro nome dado aos homens, pelo qual possamos nos salvar» (At. 4,12).
A invocação «Meu Jesus» é seguido por três solicitações específicas.
Começa com uma dirigida ao Senhor, que diz: «perdoe nossos pecados». Com apenas duas palavras, a Santíssima Virgem nos lembra que os pecados existem e ninguém está livre deles. Pecados são violações da Lei de Deus que têm sua origem no pecado original. Quando o homem cai em pecado, ele não está em condições de se redimir por suas próprias forças; Ele não pode se justificar. Ele precisa ser perdoado. É claro que sem arrependimento não pode haver perdão. E por sua vez, arrependimento significa ter consciência de que se tem direito ao castigo divino, por ter ofendido a Deus, que é digno de ser amado sobre todas as coisas.
A necessidade de arrependimento também nasce do medo do Inferno. Daí o segundo pedido: «Livrai-nos do fogo do Inferno». Cai no Inferno aquele que morre sem ter se arrependido ou sido perdoado. O inferno não é apenas um estado espiritual da alma; é o lugar reservado para aqueles que se recusam até o fim de suas vidas a se arrependerem de suas culpas. A dor sofrida no Inferno é um fogo inextinguível; um fogo real, não metafórico, que acompanha o fogo espiritual de ter perdido Deus. E sendo a alma imortal, a pena correspondente a um pecado grave de que não se arrependeu dura tanto quanto a vida da alma: sempre, pela eternidade. Tal é a doutrina da Igreja que nos recorda a Virgem Maria.
O primeiro segredo que a Virgem comunicou em Fátima aos três pastorinhos em 13 de julho de 1917 começou com uma visão aterrorizante do Inferno, que é mostrado como um lugar, e um lugar que não é vazio, mas cheio de almas dos condenados: «Ela nos mostrou um grande mar de fogo que era pacífico para estar no subsolo. Imersos nesse fogo estavam demônios e almas humanas, como brasas transparentes e pretas ou bronzeadas, que tinham forma humana e flutuavam no fogo» [...]. Somente a graça de Deus pode libertar o homem do Inferno, pois se o homem tenta prescindir da dita graça, se ele se engana acreditando poder salvar-se por suas próprias forças, não pode evitar o Inferno. É por isso que devemos orar ao Senhor «livra-nos do fogo do Inferno» também pensando nos muitos que não querem acreditar nesta trágica verdade eterna.
Chegamos ao último pedido. Depois de nos lembrar da existência do abismo infernal, a Virgem nos aponta o objetivo, o horizonte luminoso do Céu: «Levai ao Céu todas as almas, especialmente as mais necessitadas de vossa misericórdia». O Céu é o Paraíso, que é também um lugar, e não de imenso sofrimento mas de infinita felicidade, imune a todo mal e cheio de todos os bens, a gloriosa e esplêndida sede de Deus onde os justos gozam de eterna alegria.
Esta é a decisão dramática, mas autêntica, que devemos tomar na vida, a encruzilhada que nos espera na hora da morte. O Céu, onde as almas salvas alcançam a felicidade, ou o Inferno, onde os condenados sofrerão eternamente. As inumeráveis fadigas e sofrimentos da vida terrena não têm comparação com o Inferno merecido pelos nossos pecados, nem com o Céu prometido àqueles de nós que, com a ajuda de Deus, vivem na sua graça.
Irmã Lucía conta que em 3 de janeiro de 1944, na capela do convento de Tuy, teve a visão apocalíptica do castigo da humanidade, após o que sentiu ressoar em seu espírito estas palavras: «Em tempo, uma só fé, um só batismo, uma só Igreja, Santa, Católica, Apostólica. Na eternidade, o Céu! Esta palavra, Cielo –explica Irmã Lucía–, inundou meu coração de paz e felicidade, tanto que, quase sem perceber, continuei me repetindo por muito tempo: Céu, Céu!».
O desejo do Céu foi o princípio norteador da vida de Santa Teresa do Menino Jesus e de muitos outros santos. Santa Teresinha disse: «A Terra parecia um exílio para mim, eu ansiava pelo Céu...». A Terra é um vale de lágrimas em que tudo é passageiro e corrompido; o Céu é um país de felicidade onde tudo vive e nada morre. Não basta temer o Inferno; é preciso desejar o Céu, a alegria do Paraíso, que é a meta última do homem.
O homem deve desejar o Céu, mas para alcançar esse objetivo precisa da ajuda divina. Com a sua jaculatória, a Virgem nos convida a pedir a Jesus auxílio para todas as almas, mas sobretudo para os mais fracos, os que mais necessitam da miséria de Deus.
Entre aquelas almas fracas está a nossa. Confiemos na misericórdia de Deus, que nos chega por Maria, auxílio para os cristãos e refúgio para os pecadores. Foi Ela que, para nos ajudar, nos ensinou junto com os outros a oração que hoje repetimos com confiança: «Oh meu Jesus, perdoa-nos os nossos pecados, livra-nos do fogo do Inferno, leva todas as almas para o Céu, especialmente as mais necessitadas da tua misericórdia». (Fonte: Adelante La Fe)
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