De coroinha a bispo: Mons. Eleganti repassa em primeira pessoa as mudanças na Igreja

01/05/2026

"O atrativo da liturgia antiga está em sua centralidade em Deus ou em Cristo, e não na comunidade" 

O bispo beneditino Marian Eleganti, ex-auxiliar da diocese suíça de Coira, ofereceu uma reflexão em primeira pessoa sobre as profundas mudanças vividas na Igreja nas últimas décadas, desde sua infância como acólito até seu ministério episcopal.

Por INFOVATICANA

Em uma entrevista concedida a AdVaticanum, Eleganti percorre sua própria trajetória vital e sacerdotal, marcada pela transição entre a liturgia tradicional e a reforma posterior ao Concílio Vaticano II, assim como por sua experiência pastoral em uma Europa cada vez mais secularizada.

Da infância no rito tradicional à reforma litúrgica

Nascido em 1955, Eleganti recorda com clareza seus primeiros anos servindo como acólito na liturgia tradicional. Aquela experiência, afirma, configurou sua sensibilidade espiritual desde muito jovem. A passagem ao novo rito não foi, em seu caso, uma questão abstrata, mas uma transformação concreta que viveu em primeira pessoa.

Descreve esse momento como "uma reconstrução mais bem violenta e provisória da Santa Missa", na qual —segundo ele— produziram-se "grandes perdas" em elementos como as orações, os gestos ou a orientação para Deus. Essa vivência lhe permite hoje compreender por que muitos jovens se sentem atraídos pelo rito antigo.

"O atrativo da liturgia antiga está em sua centralidade em Deus ou em Cristo, e não na comunidade", explica. A isso acrescenta outros elementos que, segundo sua experiência, respondem a uma necessidade espiritual profunda: "a reverência palpável ante o Deus transcendente", o silêncio que remete ao Apocalipse ou a beleza dos sinais litúrgicos, desde o canto gregoriano até o conjunto do santuário.

No entanto, longe de cair em um reducionismo formal, matiza com uma afirmação que sintetiza sua experiência interior: "Não sou devoto porque me ajoelhe; me ajoelho porque sou devoto". A forma, insiste, não substitui a fé, mas pode ajudar a expressá-la ou, pelo contrário, diluí-la.

Uma trajetória marcada por decisões pessoais

A vida de Eleganti não esteve isenta de tensões. Sua passagem pelo episcopado suíço esteve marcada por decisões que refletem uma fidelidade à consciência acima de dinâmicas majoritárias.

Em 2018 renunciou à sua responsabilidade na pastoral juvenil dos bispos suíços após desacordos no Sínodo dos Jovens. Mais tarde, em 2021, apresentou sua demissão como bispo auxiliar aos 65 anos, uma década antes do habitual. Essas decisões não aparecem na entrevista como episódios isolados, mas como parte de uma coerência vital.

Sua figura se caracterizou precisamente por essa clareza, que o levou a abordar questões sensíveis com franqueza, mesmo à custa de tensões dentro do próprio âmbito eclesial.

A experiência pastoral ante o declínio da fé

Desde sua experiência direta como sacerdote e bispo, Eleganti oferece um diagnóstico sem matizes sobre a situação espiritual da Europa. No caso concreto da Suíça, fala de uma fé debilmente enraizada, mais cultural que vivida.

"Muitos foram batizados, mas nunca chegaram a ser verdadeiros discípulos de Cristo", afirma. Não o apresenta como um julgamento moral, mas como uma constatação pastoral.

A seu juízo, o problema de fundo é mais profundo que qualquer reforma concreta: "O pior dos males é a irrelevância prática de Deus em nossa sociedade". Ou seja, não se trata apenas de uma crise de práticas religiosas, mas de uma perda de Deus como referência real na vida cotidiana.

Esse vazio, adverte, foi ocupado por ideologias que substituíram o cristianismo sem oferecer uma alternativa sólida, gerando uma transformação cultural que afeta diretamente a vida da Igreja.

A renovação a partir do vivido

Diante desse panorama, Eleganti não propõe estratégias abstratas, mas caminhos que nascem de sua própria experiência pastoral. Sua proposta é simples em sua formulação, mas exigente em seu conteúdo: voltar ao centro.

"Como pároco, começaria celebrando a Santa Missa da forma mais profunda e bela possível, acompanhada de uma breve catequese", explica. A partir daí, descreve uma vida paroquial que brota da liturgia: encontro entre famílias, amizade, formação e comunidade.

"A Igreja começa a se renovar quando a Santa Missa ocupa o centro da vida", insiste. E acrescenta uma imagem significativa: "Se o sacerdote é uma esposa apaixonada, a comunidade que se reúne ao seu redor logo será igual". Para Eleganti, a renovação não se impõe a partir de estruturas, mas nasce da vivência autêntica da fé.

Um testemunho que atravessa décadas de mudanças

O itinerário de Eleganti —desde acólito no rito tradicional até bispo em uma Igreja marcada pela secularização— lhe permite oferecer um olhar que integra memória, experiência e juízo crítico.

Não fala desde a teoria, mas desde décadas de vida sacerdotal nas quais viu se transformar a liturgia, a prática religiosa e a cultura cristã na Europa. Essa experiência o leva a uma conclusão clara: sem a centralidade de Deus, sem a coerência doutrinal e sem uma vida sacramental vivida com profundidade, a Igreja perde sua capacidade de renovar a vida dos fiéis.

Seu testemunho, em definitivo, não é apenas uma reflexão sobre o passado, mas um aviso sobre o presente e um chamado a recuperar o essencial. (Fonte: INFOVATICANA)

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