Quem anunciar outro evangelho, seja anátema

21/03/2026

Se até nós, ou um anjo do céu, vos anunciar outro evangelho além daquele que vos anunciamos, seja anátema

Caros leitores, muito recentemente alguns foram publicados pela Santa Sé considerações do Papa Leão XIV sobre a Exortação Apostólica "Amoris Laetitia" que achei extremamente preocupante. Sua Santidade sustenta que este documento constitui "uma mensagem luminosa de esperança sobre o amor conjugal e familiar" e ele o equipara à Exortação Apostólica "Familiaris Consortio" de São João Paulo II. Porém, será que é mesmo assim? É "Amoris Laetitia" realmente um texto luminoso e é, em última análise, bom para a Igreja?

Por Lina Veracruz

Com total honestidade intelectual e respeito ao Santo Padre eu lhes digo: Eu acho que não é assim não. Veja bem, não estou dizendo que absolutamente tudo no "Amoris Laetitia" é ruim. Entretanto, concordo plenamente com o ponto de vista dos Cardeais que elevaram os famosos "Dubia" ao falecido Papa Francisco, ou seja, Suas Eminências Cardeais Burke, Brandmüller, Caffarra e Meisner (descansem em paz, os dois últimos). E também concordo com o professor Seifert, expulso injustamente do Instituto Edith Stein"de Filosofia de Granada pelo arcebispo anterior daquela diocese, justamente por sua opinião sobre essa questão. Assim, considero que o famoso capítulo VIII da Exortação Apostólica "Amoris Laetitia" constitui um torpedo em toda a linha d'água da moral católica, contrariando gravemente a Encíclica "Veritatis Splendor" e a já citada Exortação Apostólica "Familiaris Consortio", ambas de São João Paulo II; bem, entre outras coisas, "Amoris Laetitia" legitima o chamado "moral de situação", claramente condenado pelo santo Papa polonês e afirma que Deus pode querer situações de pecado, dependendo das circunstâncias, o que é falso. Além disso, da combinação de "Amoris Laetitia" com a interpretação que dela se faz pelos Bispos argentinos e que Francisco validou como a única possível, segue-se que, agora, se permite que pessoas em situação de adultério recebam a Sagrada Comunhão, contra as Sagradas Escrituras e o bimilenar Magistério da Igreja. Aquele capítulo VIII é, portanto, de tal gravidade que, a meu ver, obscurece toda a Exortação "Amoris Laetitia" e põe em perigo a salvação de muitas almas. A meu ver, deveria ser anulada e revogada, toda ela, o quanto antes, por S.S. Leo XIV (e o mesmo com a Declaração "Fiducia supplicans", diga-se de passagem, já que ela também é francamente desastrosa). Não parece, porém, que isso vá acontecer, dado o parecer do atual Pontífice sobre ela e que já, finalmente, acabamos  conhecer.

Como se não bastasse o exposto, além disso, há muito tempo temos nos deparado com declarações de Bispos que também são profundamente perturbadoras. Para citar três exemplos recentes, temos:

  • As declarações do Bispo de Málaga, Mons. Satué'dizendo que "a bênção das pessoas que têm um projeto de casal homoafetivo é, do meu ponto de vista, um passo à frente" (um passo a frente, onde, Ilustre? Rumo ao Inferno?).
  • As palavras de Mons. Gründwidl, Arcebispo de Viena (recém nomeado para o cargo por Leão XIV), afirmando que "o que vem do Espírito Santo não pode ser detido pela lei canônica", mencionando a esse respeito, aparentemente, situações como as dos divorciados recasados ou relações que não correspondem ao ideal do casamento católico (situações tratadas não só pelo Direito Canônico, mas também e sobretudo, pelo mesmo Evangelho e o Sexto Mandamento da Lei de Deus, diga-se de passagem; aparentemente o Espírito Santo pode contradizer-Se e revelar, em nosso tempo, o contrário do que Ele sempre revelou e há na Igreja Hierarcas que consideram que podem apelar à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, não menos, para justificar o que lhes ocorre e não propriamente para melhor. "Coisas verdadeiras").
  • O Bispo de Antuérpia, Mons. Bonny, anuncia que ordenará homens casados antes de 2028, aparentemente, porque sim, porque ele quer e porque  vale a pena. Bem, nada, veremos o que Roma faz diante desse novo desafio.

Há três exemplos, há muito mais. Sobre a Igreja da Alemanha, seria começar e não parar, deixando poucas exceções de lado. Toda essa situação é extraordinariamente séria e profundamente cansativa. E há várias citações do Novo Testamento que me vêm à mente quando a contemplo. Mas vamos por partes.

Antes de mais nada, vale lembrar que o Papa e os Bispos não são donos da Igreja Católica e não podem, portanto, fazer dela, nem da doutrina católica, nem da moral o que quiserem. O Papa e os Bispos são servos, não senhores. O Dono e Senhor da Igreja é Nosso Senhor Jesus Cristo e Ele vai responsabilizar a todos nós pelo que fizemos, para nos dar recompensa ou punição, de acordo com nossas obras. Aos Hierarcas da Igreja, também. Deve-se lembrar também que Leão XIV é Sucessor de São Pedro, não Sucessor de Francisco. O Papa, de modo muito especial, deve-se à Vontade de Deus e somente a ela e sua fidelidade e amor por Jesus Cristo são extremamente importantes, para si mesmo e para toda a Igreja: "Simon, filho de John, Você me ama mais do que estes?" (Jo 21, 15). Por isso, é muito bom que um Papa, seja ele quem for, pregue Jesus Cristo, mas isso de nada adianta, nem o testemunho verbal do Pontífice será, ao final, crível se, ao mesmo tempo, não obedecer ao Senhor. E com respeito aos demais Bispos, acontece o mesmo.

Em segundo lugar, os católicos, pelo menos até antes do Pontificado de Francisco, estavam acostumados a acolher com confiança os ensinamentos e as orientações dos Romanos Pontífices, tal como nos exorta o Magistério da Igreja a fazer. Não estávamos, nem estamos, Eu diria, acostumados a considerar a possibilidade de que um Papa possa errar. Contudo, certamente, um Papa pode estar errado (e pode pecar e arrepender-se e ser salvo ou condenado, como toda pessoa; o Papa é Vigário de Cristo, mas não é o próprio Cristo). A Igreja nos ensina que o Papa é infalível somente quando pronuncia "ex cathedra"' o que acontece muito raramente. No entanto, quanto às coisas que um Papa diz e que não se manifestam "ex cathedra", a música "" soará melhor ou pior para nós, dependendo do nosso conhecimento das fontes da Revelação Divina, ou seja, da Sagrada Escritura e Tradição e do Magistério da Igreja e de quão respeitosas e consistentes são as palavras do Papa, com esses elementos. Os fiéis, em maior ou menor grau, podem reconhecer as palavras do Bom Pastor nas palavras do Papa quando se esforça por nos ensinar a sã doutrina, com plena fidelidade ao depósito da fé e da moral católicas. Com os Bispos, novamente, acontece exatamente a mesma coisa. E inversamente, se o que os Pastores nos dizem são "novidades" nada em consonância com a sã doutrina, não será excessivamente difícil para nós percebermos isso, desde que tenhamos um nível aceitável de treinamento. De fato, até mesmo os inimigos da Igreja às vezes são capazes para perceber que um Pastor da Igreja está fazendo afirmações que afrontam o que a Igreja sempre ensinou (entre outros motivos, porque gostam que tal desgraça aconteça).

Em terceiro lugar, as tristíssimas "novidades" que encontramos desde o Pontificado do falecido Francisco parecem ir, em sua maioria, nessa mesma linha: Acolher os pecadores sem chamá-los à conversão, para mudarem suas vidas longe do pecado; tentando assim integrar e, em última instância, aprovar, não só a fragilidade das pessoas, mas seus pecados, dependendo do que elas são. Diante disso, é preciso dizer que a Igreja Católica nunca deveria aprovar, nem que seja minimamente, o pecado e você deve evitar qualquer ato ou declaração que possa sugerir o contrário; Bem, a Igreja não deve confundir, de forma alguma, os fiéis com relação ao que é pecado e ao que não é. A Igreja deve expandir a luz da Verdade, não as trevas do pecado, da mentira e da confusão. Caso contrário, nos encontraremos, já estamos nos deparando, com um cenário terrível: Vemos parte dos Pastores da Igreja cega, tentando orientar os fiéis a partir de sua própria situação de cegueira e de suas ocorrências, nada de acordo com a sã doutrina. E o Senhor já disse o que pode acontecer em casos assim: "Se um cego guiar outro cego, ambos cairão no buraco" (Mt 15, 14).

O que nós fiéis podemos fazer, diante dessa difícil e triste situação? Podemos e devemos fazer várias coisas. Em primeiro lugar, devemos rezar muito pelo Papa e pelos Bispos; Para todos nós, gostamos mais ou menos deles. Não nos esqueçamos da advertência de Jesus Cristo a São Pedro: "Simon, Simon, Satanás procura você para colhe-lo como trigo" (Lucas 22:31). Claro que é muito conveniente para Satanás confundir e perder, tanto quanto possível, o Papa e os Bispos, porque dela pode depender a condenação de muitas almas, ele sabe disso perfeitamente. Desta forma, nós fiéis devemos orar pelos nossos Pastores, assim como fez Nosso Senhor, para que, uma vez convertidos daquilo que, se for o caso, devem converter-se, confirmem-nos na verdadeira fé católica e na autêntica sã doutrina.

Da mesma forma, temo que, nos tempos atuais, nós fiéis não temos escolha a não ser ter em mente as palavras de São Paulo que dão título a este artigo:

"Mas se até nós, ou um anjo do céu, vos anunciar outro evangelho além daquele que vos anunciamos, seja anátema. Já vo-lo tenho dito antes e agora, outra vez, vo-lo digo: Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema" (Gálatas 1, 8-9)

O que significa isto? A meu ver, duas coisas: Em primeiro lugar, não acolher em nossos corações e mentes aquilo que sabemos, com certeza, que contradiz a Vontade revelada de Deus na Sagrada Escritura, na Tradição e no Magistério bimilenar da Igreja, quem nos conta, nos diz. E agir de acordo. Por exemplo eu, com a consciência segura, aconselho aqueles que se encontram em situação de adultério (ou qualquer outro pecado mortal) a não virem à comunhão em hipótese alguma, desde que continuem naquela situação pecaminosa e não tenham confessado com sincero arrependimento e propósito de emenda; pois quem comunga no Corpo do Senhor estando em pecado mortal, como diz São Paulo "come e bebe sua própria condenação" (1 Coríntios 11, 29). Nunca nos esqueçamos disso o inferno existe, é eterno e não é vazio tanto o Senhor quanto a Virgem e, igualmente, vários Santos testemunharam que Deus queria que eles tivessem visões do Inferno.

Em segundo lugar, devemos, também dar testemunho da Verdade, perante quem quer que seja e na medida em que cada um possa. Isto diz respeito, de modo muito especial, aos Bispos', que não devem calar se virem que um Papa (seja ele qual for) ou outros Bispos adotam uma posição que contraria a Verdade revelada. É seu dever imitar São Paulo quando resistiu publicamente e corrigiu São Pedro em Antioquia "porque ele havia se tornado condenável" (Gálatas 2, 11 – 14). Claro, devem fazê-lo com caridade e respeito como, seguramente, São Paulo o fez. Mas, mas devem fazê-lo, para o bem do rebanho que lhes foi confiado, isto é, para a salvação das almas, guardá-las na luz da Verdade e protegê-las das trevas da mentira, do pecado e da confusão. Igualmente, nós fiéis temos o direito e o dever de pedir aos nossos Pastores que sejam fiéis a Jesus Cristo e à sua missão'porque é muito duro ter que continuar aturando o espetáculo infeliz que tantos Hierarcas da Igreja vêm dando, já há anos, com afirmações absolutamente inaceitáveis e intragáveis, impróprias e indignas dos Sucessores dos Apóstolos. Desculpe dizer assim, mas é assim que vejo e sinto muito.

Além disso, se me permitem, recomendo que procuremos todos permanecer muito unidos a Nosso Senhor Jesus Cristo, à Santíssima Virgem Maria e aos Santos, pela oração e pela recepção dos Sacramentos; pois a Igreja, barco de Pedro, é o meio que temos para nos salvar e não temos outro. Devemos permanecer em comunhão com a Igreja, o que quer que vejamos e o que quer que ouçamos, pois Cristo está na Igreja Católica e, como disse São Pedro, para quem iremos nós, Senhor? Só Ele tem palavras de vida eterna (Jo 6, 68).

Por fim, roguemos a Deus, com todas as nossas forças, que tenha misericórdia da Igreja e, para o bem de todas as almas, que a tire rapidamente da horrível crise em que se encontra (que, a meu ver, é, sobretudo, uma crise de fé e de amor a Deus).

Que São Pedro e São Paulo e os demais Santos Apóstolos protejam grandemente o Papa e os Bispos, para que verdadeiramente sejam muito dóceis ao Espírito Santo e nunca busquem outra coisa senão cumprir a Santíssima Vontade de Deus; tal é a melhor maneira de servir ao Senhor, à Igreja e à causa da salvação das almas. Que assim seja. (Fonte: INFOCATOLICA)

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