Pode haver diálogo se “Tucho” é juiz e parte?

09/02/2026

Sinodalidade e decisões sem âncora doutrinal

O anúncio de possíveis novas consagrações episcopais por parte da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) —amplamente comentado nos últimos dias— tem colocado em tensão o mundo tradicional, e o pontificado de Leão XIV, diante de uma realidade que —até a data— havia tentado levar em «silêncio e escuta».

(Por INFOVATICANA)

No entanto, a recente entrevista ao superior geral da FSSPX, dom Davide Pagliarani, mostra que a decisão não se explica apenas por uma questão disciplinar ou canônica. No centro do conflito aparece a figura do cardeal Víctor Manuel Fernández —Tucho— e a orientação doutrinal impulsionada desde o Dicasterio para a Doutrina da Fé.

Não se trata simplesmente de uma relação deteriorada com "Roma" em abstrato, nem mesmo de um desacordo pontual com o Papa. Para a Fraternidade, o problema tem um rosto concreto e um conteúdo preciso: uma maneira de entender o anúncio do Evangelho, a Tradição e a autoridade doutrinal que consideram incompatível com a fé católica recebida.

Mediador designado e ponto de fricção doutrinal

Desde sua nomeação como prefeito do Dicasterio para a Doutrina da Fé em 2023, Fernández tem assumido a gestão dos assuntos doutrinais mais sensíveis da Igreja: sinodalidade, moral sexual, liturgia e mariologia. Para a FSSPX, Tucho é o símbolo de uma linha doutrinal que a Fraternidade considera decisiva no deterioro das relações.

Ao explicar por que a situação se tornou insustentável, Pagliarani não se detém em problemas administrativos nem na falta de reconhecimento jurídico. O foco está posto em documentos, discursos e critérios teológicos concretos, diretamente associados ao prefeito para a Doutrina da Fé.

O kerygma separado da Tradição

«O cardeal Fernández, em nome do papa Leão, convidou a Igreja a voltar à intuição fundamental de Francisco, expressada em Evangelii gaudium, sua encíclica chave: de maneira simplificada, trata-se de reduzir o anúncio do Evangelho à sua expressão primitiva essencial, em fórmulas muito concisas e contundentes –o «kerygma»–, com vistas a uma «experiência», a um encontro imediato com Cristo, deixando de lado tudo o mais, por valioso que seja; concretamente, o conjunto dos elementos da Tradição, considerados como acessórios e secundários.»

(Dom Davide Pagliarani. Entrevista de 2 de fevereiro)

Em suas declarações, Pagliarani descreve com clareza o que considera o núcleo do problema. Segundo explica, está-se promovendo uma forma de anunciar o Evangelho que reduz a mensagem cristã à sua expressão mais elementar —o chamado kerygma— com a intenção de provocar uma experiência imediata do encontro com Cristo. O problema, sustenta, é que esse anúncio se realiza deixando de lado o conjunto da Tradição doutrinal, moral e litúrgica, considerada secundária ou acessória.

Essa abordagem, impulsionada desde Evangelii gaudium e retomada por Fernández em nome do Papa, teria gerado o que a Fraternidade define como um vazio doutrinal, fruto de um cristianismo reduzido a impacto pastoral, mas desconectado do corpo orgânico da fé. Não se questiona a centralidade de Cristo, mas a pretensão de anunciá-lo prescindindo daquilo que a Igreja tem custodiado durante séculos.

Sinodalidade e decisões sem âncora doutrinal

A esse método soma-se a prática da sinodalidade entendida não como discernimento em continuidade, mas como substituição das respostas tradicionais por decisões novas, justificadas pastoralmente embora careçam de base doutrinal sólida.

«Certamente, nesta perspectiva há que se preocupar sempre por oferecer respostas novas e adequadas às questões que surgem; mas essa tarefa deve ser realizada através da reforma sinodal, e não redescobrindo as respostas clássicas e sempre válidas, proporcionadas pela Tradição da Igreja.»

(Dom Davide Pagliarani. Entrevista de 2 de fevereiro)

Pagliarani vincula diretamente esse modo de proceder com decisões adotadas nos últimos anos, como a comunhão para os divorciados recasados ou a bênção de casais do mesmo sexo. Para a Fraternidade, não se trata de desenvolvimentos pastorais discutíveis, mas de consequências coerentes de um método que separa o anúncio do Evangelho da doutrina moral e sacramental.

Mater Populi Fidelis como sintoma

Nesse contexto, o documento Mater Populi Fidelis, longe de ser percebido como um texto técnico mais sobre mariologia, é interpretado como um sintoma revelador de uma orientação teológica restritiva, especialmente no que respeita à devoção e aos títulos marianos tradicionais —fato que não só chamou a atenção da FSSPX—.

Para a Fraternidade, o rechaço de determinadas expressões marianas não é uma questão terminológica, mas o sinal de uma mariologia empobrecida, mais preocupada em limitar do que em custodiar a riqueza doutrinal recebida. Nessa leitura, existe uma continuidade clara entre a mariologia e a decisão de assegurar, mediante consagrações episcopais, a continuidade daquilo que consideram a fé íntegra.

Uma crítica que não fica isolada

O cardeal Joseph Zen também tem denunciado o caráter manipulador de certos métodos eclesiais atuais e tem advertido do perigo de atribuí-los ao Espírito Santo. Palavras das quais faz eco a FSSPX e que demonstram, além disso, que a deriva doutrinal não é vista apenas pela Fraternidade. Pagliarani acrescenta em sua entrevista que «é de temer; infelizmente, que tenha razão», em referência às palavras do cardeal chinês.

As cartas ao Papa e o "filtro" doutrinal

«No verão passado escrevi ao Santo Padre para solicitar uma audiência. Não tendo recebido resposta alguma, escrevi uma nova carta, uns meses mais tarde; […] Uma resposta a esta segunda carta nos foi enviada de Roma há uns dias, com assinatura do cardeal Fernández. Infelizmente, esta resposta descarta sem mais nossa proposição, sem nos oferecer uma solução alternativa.»

(Dom Davide Pagliarani. Entrevista de 2 de fevereiro)

Pagliarani afirma que tentou um contato direto e filial com o Santo Padre, solicitando uma audiência e expondo com clareza suas necessidades e divergências doutrinais. Em seu momento, a resposta não chegou do Papa, mas assinada por Fernández, e descartou a proposta apresentada sem oferecer uma alternativa, ao mesmo tempo que evocava a possibilidade de novas sanções.

«Parece-me sumamente importante poder me entrevistar com o Santo Padre e há muitas coisas que estaria encantado de transmitir-lhe e que não pude pôr por escrito. Infelizmente, a resposta recebida por parte do cardeal Fernández não prevê uma audiência com o Papa. Em troca, evoca a ameaça de novas sanções.»

(Dom Davide Pagliarani. Entrevista de 2 de fevereiro)

Para a Fraternidade, esse fato confirma que o conflito não está sendo gerenciado diretamente a nível pontifício, mas através de um filtro doutrinal percebido como fechado a qualquer solução pastoral razoável.

Tucho como juiz e parte

Dois dias depois do anúncio da FSSPX sobre os nomeamentos episcopais, a Santa Sé nomeou Fernández como único interlocutor para levar a cabo um diálogo com Pagliarani. Encontro que ficou fixado para 12 de fevereiro.

O cardeal Víctor Manuel Fernández, enquanto prefeito do Dicasterio para a Doutrina da Fé, concentra tanto a orientação doutrinal que a FSSPX questiona como o papel de filtro exclusivo do diálogo, pelo que resulta realmente paradoxal —e de certo modo lamentável— que a figura que a Fraternidade identifica como um dos principais fatores do problema seja, ao mesmo tempo, a única ponte que Roma lhes oferece. (Fonte: INFOVATICANA)