O valor da oração, mesmo a do pecador

28/03/2026

Todos os seres criados, cada um a seu modo, devem louvar a Deus e dar-Lhe glória.

A definição de que "a oração é a elevação da mente e do coração a Deus" foi popularizada por São João Damasceno e adotada por santos como Tomás de Aquino. Assim, o simples pensar em Deus, seja qual for o motivo, mesmo em silêncio ou em momentos de aflição, é oração.

Por Plinio Maria Solimeo

Santo Cura d'Ars nos dá um exemplo disso ao comentar que um seu paroquiano, camponês analfabeto e muito humilde, passava horas diante do Santíssimo Sacramento. Perguntando a ele o que fazia durante todo esse tempo, ele respondeu: "Eu olho para o Senhor, Ele olha para mim…". Essa oração muda, enlevada, essa "elevação da mente a Deus" impressionou o Cura d'Ars que a citava como exemplo.

Por sua vez, Santo Afonso Maria de Ligório dizia a seus seminaristas que a presença de Deus deve ser para eles uma realidade constante, cultivada através da oração, da Eucaristia e do amor concreto. E, para que eles tivessem sempre aos olhos algo que os ajudasse a se manterem na presença de Deus, determinou que nos corredores de seus seminários fossem afixados cartazes com frases da Escritura ou de Santos para facilitar-lhes esse exercício.

É por isso que, nos bons tempos que antecederam o Vaticano II, as igrejas eram ornadas e repletas de imagens que facilitavam o recolhimento dos fiéis, elevando suas mentes a Deus.

Todos os seres criados, cada um a seu modo, devem louvar a Deus e dar-Lhe glória. Os minerais, os vegetais e os animais irracionais, pelo fato de serem frutos da sabedoria divina, proclamam a grandeza do Criador pela simples razão de existirem. Os seres humanos, porém, por terem sido criados à imagem e semelhança de Deus, devem proclamar essa grandeza de maneira consciente e explícita, interna ou externamente, por pensamento, palavras e obras, lembrando-se que se dirigem a um Pai amoroso que está atento às nossas preces.

Exemplo dos Santos

Para Santa Teresinha, a Doutora da Pequena Via, "a oração é um impulso do coração, um simples olhar que se lança para o Céu, um grito de gratidão e de amor, tanto no seio da provação, como no meio da alegria". Isso lhe era tão fácil porque vivia na presença de Deus, como afirma: "Creio que nunca fiquei três minutos sem pensar em Deus. […] Pensa-se naturalmente em quem se ama".

Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, dizia que mesmo em meio aos maiores trabalhos, bastavam-lhe três minutos se pôr na presença de Deus.

A oração é necessária mesmo para os pecadores

A oração, portanto, está ao alcance de todos, crianças, adultos, e até dos pecadores. "Pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Porque quem pede recebe, quem busca acha, e a quem bate se abre" (Mt 7,7-8), disse o Divino Salvador, dirigindo-se a todos, sem exceção. Portanto, também aos pecadores. O que se dá também na recomendação citada por São Lucas: "É preciso orar em todo tempo e não desfalecer" (Lc 18, 1). Quer dizer, também os pecadores, para terem forças para sair do pecado, têm que rezar continuamente sem desfalecer.

Pelo que o apóstolo São Tiago Menor, bispo de Jerusalém, dirigindo-se a todos, dizem sua epístola: "Aproximai-vos de Deus, e Ele se aproximará de vós". Mas adverte os pecadores: [antes] "Limpai as mãos, pecadores, e purificai os vossos corações homens de duas almas. Senti as vossas misérias e lamentai e chorai. Humilhai-vos diante do Senhor, e Ele vos exaltará" (Tia 4, 8-10). O que significa que àquele que não vive em estado de graça é preciso, para que sua oração seja ouvida, que "purifique o coração" e "se humilhe diante do Senhor"; isso feito "Ele vos exaltará" com o perdão de seus pecados.

Consequências do pecado mortal e as dificuldades para livrar-se dele

Quando recebemos o batismo – o qual torna a nossa alma mais branca que a neve, o que ocorre também quando somos absolvidos dos nossos pecados graves numa confissão bem feita –, recebemos pela primeira vez ou readquirimos a graça santificante, as virtudes infusas e os dons do Espírito Santo, que vem morar em nossas almas. Além disso, passamos a adquirir méritos para o Céu por nossas orações, boas obras e penitências.

Entretanto, se tivermos a infelicidade de cometer um pecado grave por pensamento, palavra ou obras, perdemos imediata e inexoravelmente tudo isso. Em resumo, perdemos o estado de graça como nossos primeiros pais quando pecaram no Paraíso; quer dizer, ficamos espiritualmente despidos, despojados de todos os bens anteriormente adquiridos.

Se não tivermos, por qualquer motivo, a felicidade se confessar imediatamente ou nos dias seguintes ao pecado – por exemplo, por nos encontrarmos numa região onde escasseiam os sacerdotes –, ficaremos fisicamente impedidos de nos acercarmos do Sacramento da Confissão por tempo indeterminado.

Ora, pode suceder então que, por uma ação do Pai da Mentira, não nos ocorra o que aprendemos no Catecismo: isto é, que uma contrição perfeita apaga os pecados e reconcilia a alma com Deus, com a condição de que, na primeira ocasião, recorra à confissão sacramental.

Se isso não ocorre, o demônio nos insinua que, por não estarmos em estado de graça, não nos adianta rezar porque não seremos ouvidos. Com efeito, diz o Profeta Isaías: "São as vossas iniquidades que puseram uma separação entre vós e o vosso Deus, e os vossos pecados são os que lhe fizeram esconder de vós a sua face, para não vos ouvir" (Is 59, 2).

Condições para que a oração do pecador seja ouvida

Como responder a isso? Deus não ouve mesmo a oração de quem está em pecado grave?

Deus só não ouvirá as preces de alguém, se este estiver de tal maneira enchafurdado no pecado grave que não deseje sair dele. Porque isso demonstra um estado de endurecimento de coração, descrito biblicamente como um processo de negação e insensibilidade espiritual. O pecado então se torna para ele um vício ou uma prática habitual, onde ele conhece a verdade, mas prefere seu prazer momentâneo à Lei de Deus. Ou seja, sua consciência fica insensível por estar escravizada e subjugada ao pecado.

Um exemplo bíblico disso temos no Exodus, quando narra que o Faraó endureceu seu coração contra Deus repetidamente ao se recusar a libertar o povo de Israel, mesmo diante das repetidas pragas que o Onipotente lhe enviou. (7:13, 8:15). O que teve como consequência que "o Senhor então endureceu o coração do Faraó" (9:12) e o entregou à sua própria teimosia como juízo.

Deus não resiste a um coração contrito e humilhado

Contudo, Deus ouvirá sempre um "espírito compungido" e não "desprezará um coração contrito e humilhado" (Sl 50, 18).

Disso temos tocante exemplo com o Profeta David, que para se casar sacrilegamente com Betsabé, esposa de um oficial que por ele arriscava a vida na frente de batalha, mandou que o colocassem no local mais arriscado, em que tivesse pouca chance de sair vivo. Foi o que aconteceu. O Rei então passou a viver com Betsabé.

Portanto, David cometeu um duplo pecado: o de adultério e o de assassinato.

Mas quando foi interpelado pelo profeta Natan da parte de Deus, que lhe mostrou a hediondez de seu pecado, David se arrependeu profundamente e, caindo de joelhos, compôs o mais sublime cântico de arrependimento e louvor a Deus até então escrito, o Salmo 50, que diz: "Tende piedade de mim, ó Deus, segundo vossa grande misericórdia. E, segundo a multidão das vossas clemências, apagai a minha iniquidade". Aqui ele confessa a sua iniquidade e pede que Deus tenha misericórdia e o absolva de seu pecado.

E sua oração, apesar de ter sido feita quando ele estava em duplo pecado mortal, foi ouvida por Deus, que não resiste a um coração contrito e humilhado.

São Tomás sobre a oração do pecador

Embora possa parecer supérfluo, em vista do que já foi dito sobre Deus ouvir sempre o pecador arrependido, acrescentemos uma explicação dada por São Tomás de Aquino de por que isso se dá.

Sim, ele confirma que Deus atende as orações do pecador quando este a faz com as devidas disposições. Pois dita oração, embora não seja meritória, tem, não obstante, a virtude de impetrar graças cuja concessão não vem da justiça, mas da bondade de Deus.

O que significa que, embora o pecador não tenha "méritos" (direito adquirido por caridade) para exigir algo de Deus devido ao estado de pecado, sua oração humilde tem o poder de pedir e obter (impetrar) a graça do perdão e a conversão, movida pela misericórdia divina, como diz o Real Profeta no Salmo 31: "E disse: confessarei ao Senhor contra mim mesmo a minha injustiça, e Tu perdoaste a malícia do meu pecado".

Uma objeção

Ora, baseando-se no que diz o Catecismo Romano – "na comunhão dos bens internos entram somente os que estão na graça de Deus; os que estão em pecado mortal, não participam de todos estes bens" (217); e ainda: "Porque é a graça de Deus, vida sobrenatural da alma, que une os fiéis a Deus e a Jesus Cristo como seus membros vivos e os torna capazes de fazer obras meritórias para a vida eterna; e porque, aqueles que se encontram em pecado mortal, não tendo a graça de Deus, estão excluídos da comunhão perfeita dos bens espirituais e não podem fazer obras meritórias para a vida eterna" (218)) –, alguém poderia levantar a seguinte objeção: "Deus não ouve a oração do pecador porque está fora da Comunhão dos Santos". O que parece significar que a eficácia da oração depende dessa Comunhão.

A isso poder-se-ia acrescentar outra objeção: "E mesmo que fosse ouvido, só o será quando rezar por si, e não por outros".

A essas duas objeções reponde o famoso moralista e Doutor da Igreja, Santo Afonso de Ligório com o caso da cananeia:

"Esta mulher tinha uma filha atormentada pelo demônio e pediu a Nosso Senhor que a livrasse: 'Tem compaixão de mim, pois minha filha está atormentada pelo demônio'. Nosso Senhor lhe respondeu que não fora enviado para os gentios, mas sim para os judeus. Não desanimou a mulher e tornou a pedir: 'Senhor, ajudai-me; Senhor, Vós podeis consolar-me e Vós haveis de me consolar'. Jesus lhe replicou: 'Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães'. 'Mas, Senhor meu', acrescentou ela, 'também os cachorrinhos comem das migalhas da mesa dos donos'. Então o Salvador, vendo a grande confiança dessa mulher, louvou-a, e lhe concedeu a graça pedida dizendo: 'Ó mulher, grande é a tua fé; faça-se contigo como desejas'"

Conclui Santo Afonso: "E que diz o Eclesiástico, 'quem jamais invocou o auxílio de Deus e Deus o desprezou e não o socorreu? Quem O invocou e foi por ele desprezado?" Eclo 2:10-11). Ora, a cananeia era pagã e não participava da Comunhão dos Santos, não pedia para si, mas para a filha. No entanto, Nosso Senhor a atendeu.

Quer dizer, não é por efeito de sua justiça que Deus Nosso Senhor ouve os pecadores, mas por sua bondade.

Por isso o pecador, mesmo não participando da Comunhão dos Santos, deve rezar, dar esmolas etc., como meio impetratório para vir a adquirir o estado de graça, ou seja, a sua justificação. (Fonte: Agência Boa Imprensa)

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