O eclipse da autoridade: Entre o Ideal de São Bernardo e a realidade de Leão XIV

27/02/2026

Contraste enorme entre escolhas recomendadas por um santo e as atuais

A recente meditação quaresmal pregada pelo Bispo Erik Varden diante da Cúria Romana e do Papa Leão XIV trouxe à tona um fantasma que parece assombrar os corredores do Vaticano: a obra De Consideratione, de São Bernardo de Claraval. Ao resgatar os conselhos do Doutor Melífluo ao Papa Eugênio III, Varden não apenas relembrou os fundamentos do governo eclesiástico, mas, ainda que involuntariamente, traçou o mais severo diagnóstico do atual pontificado.

A tese de São Bernardo é clara: a reforma da Igreja não é uma questão de engenharia burocrática ou de "soluções técnicas", mas da qualidade espiritual e doutrinária daqueles que a governam. No entanto, ao olharmos para as escolhas de Leão XIV, o que vemos é um distanciamento abismal desse critério de "consideração" em favor de uma agenda puramente ideológica e secularizada.

O perfil dos colaboradores: Integridade vs. Ideologia

São Bernardo exigia colaboradores de "integridade comprovada, firmes na fé católica, fiéis no ministério e amantes da unidade". Como conciliar esse perfil com as recentes nomeações de Leão XIV? O Papa tem sistematicamente escolhido indivíduos cujas trajetórias são marcadas por uma distância gritante da ortodoxia perene.

O exemplo mais escandaloso é a nomeação da religiosa Irmã Brambilla para a direção de um Dicastério. Historicamente, e por uma razão teológica profunda ligada ao exercício da jurisdição e à natureza do Sacramento da Ordem, tais cargos de governo foram reservados aos Cardeais, os "príncipes da Igreja". Ao romper com essa tradição para elevar figuras identificadas com o progressismo radical, Leão XIV não está "modernizando" a estrutura; está desfigurando a própria hierarquia de instituição divina.

A escolha de Brambilla e de outros nomes alinhados à chamada "Igreja Sinodal" revela uma preferência por pessoas que confiam mais na "sua própria astúcia" — para usar as palavras de Varden — do que na oração e no depósito da fé. São colaboradores "sóbrios na palavra"? Pelo contrário: são vozes que ecoam os sentimentos do mundo, as pautas do globalismo e as ambiguidades de uma teologia que não mais busca converter o mundo a Cristo, mas adaptar a Igreja ao espírito do tempo (Zeitgeist).

A Igreja Sinodal: uma estrutura sem espiritualidade

Varden recordou que a consideração busca a verdade nas circunstâncias mutáveis, mas sempre orientada pelas "verdades já conhecidas". O projeto sinodal de Leão XIV, contudo, parece tratar a verdade como um processo em constante mutação, onde o "ouvir" substitui o "ensinar".

Enquanto São Bernardo pedia que o Papa olhasse "para o alto para ordenar o temporal", a Cúria atual parece olhar apenas para o horizonte sociológico. O governo da Igreja tornou-se um exercício de "administração de poder próprio", transformando o Vaticano em um laboratório de experiências sociais, onde a "missão primordial de dar glória a Deus" é secundarizada em prol de uma agenda de inclusividade sem conversão e de diálogo sem verdade.

O tesouro alheio

O encerramento da meditação de Varden foi um lembrete severo: o depósito da fé pertence a Cristo e deverá ser-lhe devolvido. Governar a Igreja é "custodiar um tesouro alheio".

A crítica que o catolicismo tradicional faz a Leão XIV é precisamente esta: sob o pretexto de uma "Igreja em saída" e de estruturas horizontais, o tesouro da Fé está sendo negligenciado. Ao cercar-se de progressistas que relativizam o dogma e de figuras que ocupam lugares que a Tradição reservou à hierarquia sagrada, o atual Pontífice arrisca-se a devolver ao Senhor um depósito fragmentado e irreconhecível.

Se, como disse Varden, a responsabilidade pastoral é um fardo que se torna leve apenas quando compartilhado com Cristo, tememos que o fardo de Leão XIV esteja se tornando pesado demais para a Igreja suportar, pois foi trocado o "jugo suave" da Verdade imutável pelo peso morto das inovações humanas. A Igreja não precisa de mais dicastérios dirigidos por ideólogos; precisa, urgentemente, voltar à "consideração" de São Bernardo. (Redação: Vida e Fé Católica)

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