O consistório centra-se na Sinodalidade: «A liturgia, depois veremos..."

08/01/2026

A primeira notícia do primeiro consistório do pontificado de Leão XIV não é um gesto de ruptura, nem mesmo de correção. É uma confirmação.  

Por ampla maioria, os cardeais reunidos no consistório extraordinário decidiram dedicar seus trabalhos a dois temas: sinodalidade e evangelização e missão à luz de Evangelii gaudium. Liturgia e reforma da Cúria, para outra ocasião. Se sobrar tempo. Veremos.

Por Carlos Balén  

O dado não é menor. Não é um matiz técnico nem uma questão de agenda. É uma declaração de prioridades. Em um momento de emergência objetiva —colapso vocacional, desafeição sacramental, descrédito moral da hierarquia, confusão doutrinal— o Colégio Cardinalício optou, mais uma vez, por se olhar no espelho e falar de si mesmo.

Dizem-nos que o tempo urge. Que não se pode falar de tudo. E precisamente por isso se deixa de fora o que toca o nervo mesmo da Igreja: a liturgia, fonte e culmen de sua vida; e o apostolado entendido não como conceito, mas como transmissão real da fé. Em vez disso, escolhe-se continuar refletindo sobre o processo, o método, a estrutura. Sobre a sinodalidade. Outra vez.

Enquanto isso, cardeais como Robert Sarah —que representam uma sensibilidade eclesial centrada em Deus, na adoração, no silêncio e na tradição viva— passaram horas ouvindo figuras como Tolentino de Mendonça, Tagle ou Radcliffe. A mensagem implícita é clara: não há tempo para falar de liturgia, mas sim para voltar a ouvir aqueles que há uma década marcam o mesmo discurso, com os mesmos resultados.

E aqui convém deter-se, porque o problema já não é debatível em abstrato. A sinodalidade, tal como se está aplicando, fracassou. E não só fracassou: começa a resultar obscena.

Apresenta-se-nos como um processo de escuta, mas não o é. É um monólogo institucional. As mesmas estruturas que conduziram a Igreja no Ocidente a uma crise sem precedentes —conferências episcopais, comissões, secretariados, escritórios diocesanos— perguntam-se a si mesmas, respondem-se a si mesmas e depois apresentam o resultado como "a voz do Povo de Deus".

Isso não é discernimento. É auto justificação.

O Povo de Deus não fala em formulários. Não fala em assembleias cuidadosamente moderadas. Não fala em documentos de síntese redigidos por equipes técnicas. Fala em fatos mensuráveis, incômodos, impossíveis de maquiar: nos seminários vazios ou cheios; nas vocações que surgem ou desaparecem; nos matrimônios que perseveram ou se dissolvem; na assistência real à missa; na prática sacramental efetiva; nas peregrinações que crescem espontaneamente à margem dos planos pastorais oficiais.

Essa é a voz que não querem ouvir, porque não se pode manipular.

Organizar um "processo de escuta" canalizado pelas mesmas dioceses e conferências episcopais que há décadas fracassam pastoralmente só pode produzir uma coisa: eco. Ressonância da própria voz. Auto complacência. Pura engenharia do relato. Não há escuta: há propaganda interna.

E o mais grave é que já não se trata de um erro de diagnóstico pontual. É um empecinamento. Ano após ano, sínodo após sínodo, documento após documento, repete-se o mesmo esquema: análise interminável, linguagem terapêutica, apelos vagos ao Espírito Santo… e enquanto isso, menos fé vivida, menos sacramentos, menos vocações, menos clareza.

A hierarquia contempla-se a si mesma como Narciso, fascinada por seu próprio reflexo, enquanto a realidade lhe escapa por completo. Multiplicam-se os textos, as etapas, os itinerários, as "experiências de caminho"… mas não se corrige o método, embora os resultados sejam desastrosos.

E agora, no primeiro consistório de Leão XIV, insiste-se novamente em que "o caminho é tão importante quanto a meta". É uma frase bonita. Também profundamente reveladora. Quando o caminho se converte em fim, a missão desaparece. E sem missão, a Igreja deixa de ser Igreja para se converter em uma ONG espiritual que gerencia processos.

A evangelização, além disso, aparece subordinada. Não como anúncio claro de Cristo crucificado e ressuscitado, mas filtrada "à luz de Evangelii gaudium", isto é, enquadrada em um marco já conhecido, já explorado, já ideologizado. Evangelização, sim… mas sem incomodar, sem confrontar, sem questionar as categorias dominantes.

Enquanto isso, a liturgia —que é onde a fé se encarna, onde Deus é adorado e não gerenciado— fica adiada. Como se fosse um assunto secundário. Como se não tivesse nada a ver com a transmissão da fé. Como se não fosse precisamente a degradação litúrgica um dos fatores chave da crise atual.

Este consistório não abriu uma etapa nova. Confirmou uma inércia. E essa inércia tem um custo altíssimo: continuar perdendo tempo enquanto se perde a fé.

A sinodalidade, tal como se está planteando, não é um caminho de renovação. É um sintoma. O sintoma de uma Igreja que já não se atreve a ensinar, que substituiu a autoridade pelo procedimento, a verdade pelo consenso e a missão pela conversa.

E o problema não é que falte tempo. O problema é que se continua evitando, deliberadamente, falar do essencial. (Fonte: INFOVATICANA)