Infalibilidade vs. Inovação — O Papa como Guardião da Tradição
A ânsia por novidades é o pior inimigo da tradição

A doutrina do Papado é, sem dúvida, um dos pilares da fé católica. O Bispo de Roma, sucessor de São Pedro, é o Vigário de Cristo na Terra, o princípio perpétuo e visível da unidade da fé e da comunhão. No entanto, em tempos de profundas transformações e questionamentos dentro da Igreja, o conceito de "Teologia do Papado" tornou-se um campo de batalha, frequentemente mal compreendido, especialmente no que tange à infalibilidade papal e aos limites da inovação doutrinária.
(Por Vida e Fé Católica)
Consistório dos cardeais em Roma
O recente Consistório realizado no Vaticano dias 7 e 8, não demonstrou o papa como guardião da fé, mas sim como alguém sujeito a muitas opiniões modernistas. Logo no discurso de abertura o cardeal Radcliffe valorizou a "novidade", como se esta fosse algo da máxima importância. Novidade não é sinônimo de verdade. Muito mais fácil seria seguir as verdades deixadas por Nosso Senhor Jesus Cristo que seguir novidades inventadas da cabeça de cada cardeal. Com isto se vê que a Igreja de Roma parece ser mesmo apenas os prédios, pois anda longe da verdadeira fé católica.
Ainda sobre o Consistório, um dos temas que deveria ser discutido seria a liturgia. Mas parece que o medo de assumir que a Santa Missa Tradicional (Tridentina) tem arrebatado milhares de pessoas pelo mundo, fez com que adiassem tal tema para outra ocasião, alegando falta de tempo. Ao contrário, insistiram na fracassada sinodalidade, que não tem levado a nada nos últimos anos. Ambiguidades foi o que não faltou pois parece que poucos tem coragem de dizer a verdade da fé como ela é, sem rodeios nem meias palavras.
Para o catolicismo tradicional, o Papa é o guardião da Tradição, não seu inventor.
1. A Instituição divina do papado
A primazia de Pedro foi estabelecida pelo próprio Cristo: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" (Mt 16,18). Esta fundação divina confere ao Papa uma autoridade única, que não é delegada pelos homens, mas diretamente por Deus. Os sucessores de Pedro são investidos da autoridade de "atar e desatar", de "apascentar o rebanho" (Jo 21,15-17).
Essa autoridade, porém, tem um propósito claro: proteger e transmitir fielmente o depósito da fé (o Depositum Fidei) revelado por Cristo aos Apóstolos.
2. A Infalibilidade papal: um carisma específico e limitado
A doutrina da infalibilidade papal, solenemente definida no Concílio Vaticano I (1870) pela Constituição Dogmática Pastor Aeternus, não significa que o Papa é impecável ou que tudo o que ele diz é infalível. Pelo contrário, é um carisma estritamente definido e limitado:
Condições da Infalibilidade: O Papa é infalível apenas quando (1) fala ex cathedra (da Cátedra de Pedro), (2) como pastor e doutor de todos os cristãos, (3) define uma doutrina referente à fé ou à moral, (4) para ser mantida por toda a Igreja.
Propósito da Infalibilidade: Não é para proclamar novas doutrinas, mas para preservar o depósito da fé contra o erro. O Papa, sob essas condições, é assistido pelo Espírito Santo para que não erre ao definir o que já foi revelado. Ele não pode criar uma nova doutrina ou contradizer uma verdade já definida.
"O Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro para que, por revelação sua, manifestassem uma nova doutrina, mas para que, com sua assistência, guardassem santamente e expusessem fielmente a revelação transmitida pelos Apóstolos, ou seja, o depósito da fé." — Concílio Vaticano I, Pastor Aeternus
Essa citação é crucial. Ela estabelece que o papel do Papa é de preservar e expor a fé, não de inovar ou introduzir novas revelações.
3. O Papa como Guardião da Tradição, não Inovador
No catolicismo tradicional, a noção de um Papa que "inova" ou que muda a doutrina é uma contradição em termos. A Tradição, com "T" maiúsculo, é a transmissão viva da fé revelada, um rio que flui dos Apóstolos até nós, imutável em sua essência.
Fidelidade ao Passado: O Papa é o primeiro a quem se exige fidelidade àquilo que "sempre e em todo lugar foi crido" (Quod ubique, quod semper, quod ab omnibus). Suas encíclicas, bulas e pronunciamentos devem estar em perfeita harmonia com o Magistério perene de seus predecessores e com a Sagrada Escritura.
Aparência de Inovação: Quando se observa uma aparente "inovação" que contradiz o ensino anterior, o católico tradicional é chamado a um discernimento sério. Isso não significa desobediência, mas a reafirmação de que a obediência se dá à verdade e à fé de sempre. Nenhum Papa pode exigir obediência a algo que contradiga a fé divinamente revelada.
4. A crise da autoridade e a busca pela clareza
Após o Concílio Vaticano II, muitos católicos tradicionais sentiram que a distinção entre infalibilidade e opinião pessoal, ou entre Tradição e inovação, tornou-se confusa. Decisões pastorais e pronunciamentos que parecem contradizer ou enfraquecer doutrinas anteriormente firmes geraram uma crise de autoridade e de confiança.
Essa crise, no entanto, não nega o Papado em si, mas apela para que o sucessor de Pedro exerça sua autoridade em conformidade com o seu propósito divino: confirmar os irmãos na fé imutável, e não na experimentação teológica.
Conclusão: ancorados na rocha eterna
Para o católico tradicional, compreender a Teologia do Papado é crucial para navegar os tempos atuais. É reconhecer o Papa como a cabeça visível da Igreja, amá-lo e rezar por ele, mas sempre com a consciência de que sua autoridade é exercida a serviço da Verdade.
A infalibilidade não é uma licença para inovar, mas uma garantia divina de que, nas condições corretas, a Igreja não errará ao proclamar o que Cristo nos ensinou. Ancorados na Tradição de dois milênios, os fiéis encontram a verdadeira segurança e a clareza que o espírito de inovação e confusão não pode oferecer. (Redação: Vida e Fé Católica)






