Iconografia Comentada: A Transfiguração de Rafael – O Esplendor de Cristo e a miséria humana
Uma das obras mais relevantes e inspiradoras

A obra "A Transfiguração", encomendada pelo Cardeal Giulio de Médici em 1516, é o testamento artístico de Rafael Sanzio. Sendo sua última pintura antes de morrer, ela resume não apenas o auge da técnica renascentista, mas uma profunda lição teológica sobre a natureza de Cristo e a necessidade da Graça divina frente à insuficiência humana.
(Por Vida e Fé Católica)
Do ponto de vista do catolicismo tradicional, a tela não é apenas uma representação histórica, mas uma meditação visual sobre o Mistério da Redenção.
O triunfo da glória: A Divindade Revelada
A parte superior da pintura retrata o evento ocorrido no Monte Tabor, como descrito nos Evangelhos:
"E transfigurou-se diante deles; e o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz." (São Mateus 17, 2)
Rafael eleva Cristo em um halo de luz ofuscante, flutuando entre os profetas Moisés (representando a Lei) e Elias (representando os Profetas). Para o fiel tradicional, esta cena reafirma a unidade das Escrituras: Cristo é o cumprimento de toda a revelação antiga. Os apóstolos Pedro, Tiago e João caem por terra, cegos pela glória da Shekinah, a nuvem luminosa que os envolveu.
O contraste doloroso: O mundo aos pés do monte
Enquanto o topo da tela exala paz e esplendor celestial, a parte inferior é marcada pelo caos e pela treva. Rafael justapõe o milagre do Tabor com o episódio do jovem possesso que os outros apóstolos não conseguiram curar na ausência de Nosso Senhor.
"Senhor, tem compaixão de meu filho, que é lunático e padece muito... Apresentei-o aos teus discípulos, e eles não o puderam curar." (São Mateus 17, 14-15)
O contraste é teológico:
No topo: A Ordem, a Luz e a Divindade.
Na base: A desordem do pecado, a agitação do mundo e a possessão demoníaca que a medicina humana (representada pelas cores sombrias e gestos dramáticos) é incapaz de aplacar.

A mediação necessária
Observe que, na parte inferior, os apóstolos e a família do jovem apontam para cima. Este é o ponto central da iconografia: a humanidade não pode salvar a si mesma. A cura para o possesso, assim como a salvação para a alma, não vem de fórmulas políticas ou esforços puramente humanos, mas da descida da Graça divina do Monte Tabor.
O gesto do apóstolo que aponta para Cristo transfigurado resume o papel da Igreja: dirigir o olhar do mundo sofredor para a Fonte da Vida.
A unidade de duas naturezas
Tradicionalmente, a obra também é vista como uma defesa da natureza de Cristo. Ele é, ao mesmo tempo, o Deus que brilha no Tabor e o Homem que desce para expulsar demônios e curar feridas. Rafael captura o momento em que a divindade de Jesus se torna visível aos olhos mortais para fortalecer os apóstolos antes da Paixão.
Resumo visual da obra
Elemento Significado Teológico
Moisés e Elias A harmonia entre a Lei, os Profetas e o Evangelho.
A Nuvem Luminosa A presença do Espírito Santo e a voz do Pai.
O Jovem Possesso A humanidade caída sob o jugo do demônio e do pecado.
O Contraste de Luz A diferença entre a Jerusalém Celeste (claridade) e o Vale de Lágrimas (sombras).
(Redação: Vida e Fé Católica)






