Dois Pesos, Duas Medidas: O Escândalo do Rigorismo Contra a Tradição

14/02/2026

Partido Comunista chinês pode nomear bispos, FSSPX não

A recente notícia veiculada pelo FSSPX News traz à tona uma ferida aberta no coração da Igreja contemporânea: o contraste gritante entre a diplomacia misericordiosa de Roma para com o regime comunista chinês e a severidade canônica aplicada àqueles que apenas desejam conservar a Fé de sempre. A pergunta que ecoa nos lares católicos é inevitável: Como pode a Santa Sé tolerar a ingerência de um Estado ateu na sucessão apostólica e, ao mesmo tempo, condenar atos de preservação sacramental da Fraternidade São Pio X?

(Por Vida e Fé Católica)

A diplomacia do compromisso com o ateísmo

Durante décadas, o Partido Comunista Chinês (PCC) — uma entidade fundamentada no materialismo dialético e explicitamente hostil ao Reinado Social de Cristo — tem perseguido a Igreja e tentado moldá-la à imagem do Estado. O acordo de 2018 entre Pequim e o Vaticano foi apresentado como um "mal necessário", um pragmatismo em nome do "bem das almas" para evitar o cisma e permitir a sobrevivência da vida católica sob vigilância.

Neste cenário, Roma aceita:

  • Nomeações unilaterais feitas por um governo que não crê em Deus.

  • O silêncio diante da "sinicização" da doutrina.

  • A regularização retroativa de bispos que foram sagrados sem mandato pontifício, sob pressão política.

O argumento romano é o do realismo pastoral. Dizem-nos que o contexto de perseguição justifica medidas extraordinárias e o diálogo com o erro para preservar o que resta de vida cristã.

O "estado de necessidade" e a salvaguarda da fé

Se o pragmatismo é válido para lidar com carrascos comunistas, por que ele é sumariamente descartado quando o assunto é a Tradição Católica?

Ao contrário do PCC, a FSSPX não busca fundar uma "igreja nacional", nem possui uma ideologia estranha ao Evangelho. Sua intenção é única: a salvaguarda do sacerdócio e a transmissão da Fé. Quando a Fraternidade fala da necessidade de novos bispos, ela apela ao Estado de Necessidade — uma realidade canônica onde, em tempos de crise profunda na doutrina e na liturgia, medidas excepcionais são tomadas não para desafiar a autoridade papal, mas para garantir que o povo fiel não fique privado dos sacramentos e da sã doutrina.

"A salvação das almas é a lei suprema da Igreja (Salus animarum suprema lex). Se este princípio justifica o diálogo com Pequim, por que não justificaria a proteção da Missa de Sempre?"

A Inversão de valores na gestão da crise

O que observamos é uma desproporção que beira o absurdo teológico:

  1. Na China: Há tolerância para com um aparato estatal que aprisiona bispos fiéis e reescreve a Bíblia sob a ótica marxista.

  2. Na Tradição: Há rigidez, restrições litúrgicas (como se vê no cerco à Missa Tridentina) e suspeita constante contra aqueles que rezam como seus antepassados.

A questão não é meramente disciplinar ou burocrática; é doutrinária. Se Roma minimiza a crise da Igreja, as consagrações da FSSPX parecem "rebeldia". Mas se Roma reconhecesse a gravidade da apostasia silenciosa que esvazia seminários e destrói a Fé no Ocidente, veria que a ação da FSSPX é um ato de caridade para com as gerações futuras.

O amparo no direito canônico (Código de 1983)

Curiosamente, o Código de Direito Canônico atual oferece suporte para quem age sob necessidade, mesmo que cometa uma infração técnica. O Cânon 1323, 4º afirma que não está sujeito a nenhuma pena quem, ao violar uma lei ou preceito:

  • Agiu forçado por medo grave, ainda que só relativamente, ou por necessidade, ou para evitar grave dano.

  • Agiu na convicção (ainda que errada) de que existia tal estado de necessidade.

Portanto, se um bispo sagra outro por acreditar sinceramente que a Fé católica está em risco de desaparecer em determinada região ou grupo, a lei canônica mitiga ou anula a punição.

O exemplo histórico e a analogia com a China

A aplicação do Estado de Necessidade não é uma invenção moderna. Na história da Igreja, em tempos de perseguição (como na Inglaterra de Elizabeth I ou na Revolução Francesa), padres agiram "fora da jurisdição" para salvar almas.

A crítica da FSSPX reside na contradição de Roma:

  • Na China: Roma reconhece o Estado de Necessidade para validar bispos escolhidos por um regime ateu, visando a "sobrevivência institucional".

  • Na Tradição: Roma recusa o Estado de Necessidade para bispos que visam a "sobrevivência doutrinária".

Para o católico tradicional, o perigo de perder a Fé devido ao modernismo é tão real e grave quanto o perigo de perder a liberdade sob o comunismo.

Conclusão: uma questão de justiça

Não se pode exigir obediência cega a normas administrativas enquanto se permite que o depósito da Fé seja corroído por ideologias ou diplomacias mundanas. Se há espaço para "realismo" com o comunismo, deve haver, por justiça e dever de ofício, reconhecimento da legitimidade da resistência tradicional.

A Igreja não é uma organização política que negocia com tiranos enquanto castiga seus filhos mais zelosos. A resposta de Roma a este dilema definirá como a história julgará este pontificado: como um tempo de pontes para o mundo ou de muros para a Tradição. (Redação: Vida e Fé Católica)