Dois pesos, duas medidas: A perseguição ao Rito Romano Tradicional e a pluralidade oriental
Por que no Oriente vários ritos litúrgicos são permitidos e no Ocidente tem que ser apenas a Missa Nova?

A Igreja Católica, em sua vastidão e riqueza milenar, sempre foi um mosaico de povos, culturas e, notavelmente, de ritos litúrgicos. Durante séculos, essa diversidade foi celebrada como uma manifestação da unidade mais profunda da Fé, não uma ameaça a ela. No entanto, o cenário atual apresenta um paradoxo gritante: enquanto no Oriente cristão a multiplicidade de ritos é não apenas tolerada, mas incentivada, no Ocidente, a Missa Tradicional — o Rito Romano de todos os séculos — é alvo de uma perseguição sem precedentes pelo próprio Vaticano.
(Por Vida e Fé Católica)
Esta dicotomia levanta uma questão crucial para o católico tradicional: Por que no Oriente vários ritos litúrgicos são permitidos e no Ocidente tem que ser apenas a Missa Nova?
A harmonia da pluralidade: um olhar para o oriente
Desde seus primórdios, o Cristianismo floresceu em diferentes centros culturais, cada um desenvolvendo suas próprias expressões litúrgicas, profundamente enraizadas na história apostólica e na piedade local. A Igreja Católica Universal sempre abraçou essa riqueza.
No Oriente, esta pluralidade é uma realidade viva e vibrante:
Rito Bizantino: O mais difundido, usado por igrejas como a Greco-Católica Ucraniana e a Melquita.
Rito Antioqueno ou Siríaco Ocidental: Presente nas Igrejas Maronita, Católica Siríaca e Siro-Malancar.
Rito Armênio: Propriedade da Igreja Católica Armênia.
Rito Caldeu ou Siríaco Oriental: Adotado pelas Igrejas Católica Caldeia e Siro-Malabar.
Rito Copta ou Alexandrino: Encontrado nas Igrejas Católica Copta e Etíope.
Rito Ge'ez: Também utilizado pela Igreja Católica Etíope.
Estes ritos, com suas liturgias imponentes, seus cânticos milenares, sua teologia profunda e suas rubricas bem definidas, são praticados livremente, celebrados diariamente em união com Roma, e jamais foram motivo de "escândalo" ou "desunião" para o Vaticano. Pelo contrário, são vistos como tesouros, como pulmões da Igreja. Ninguém cogita eliminá-los em nome de uma "unidade" monolítica.
A tragédia do ocidente: O monopólio do Novus Ordo
Em flagrante contraste com essa visão ecumênica interna, o Rito Romano, a forma de celebração da Missa que alimentou a santidade de gerações de católicos no Ocidente por mais de mil e quinhentos anos (codificada por São Pio V no Concílio de Trento e usada ininterruptamente até 1962), está sob ataque implacável.
A imposição do Novus Ordo Missae (a "Missa Nova") pós-Vaticano II como a única expressão "normal" da liturgia romana no Ocidente é um fenômeno sem precedentes na história da Igreja.
A Ruptura Injustificada: Durante séculos, a Igreja conviveu com uma pluralidade harmônica de ritos e usos no Ocidente: romano, ambrosiano, moçárabe, cartuxo, dominicano, e tantos outros. Ninguém entendia essa diversidade como uma ameaça à unidade; ao contrário: era a prova de uma unidade mais profunda, não administrativa ou decretal, mas doutrinal e sacramental.
A "Unidade" como Pretexto: Hoje, fala-se de "unidade da Igreja" como justificativa para eliminar a Missa Tradicional. Ora, como poderia haver unidade da Igreja apenas se eliminando um dos ritos – justamente o rito celebrado por santos, mártires, doutores, missionários e povos inteiros durante séculos? Isso equivale a afirmar que a Igreja não teve durante séculos uma forma adequada de expressar essa unidade.
O fruto da liturgia: um contraste evidente
A justificação para essa perseguição se torna ainda mais questionável quando observamos os frutos de cada rito.
No artigo anterior, destacamos a diferença prática e objetiva entre os fiéis que frequentam o Rito Tridentino e os que se limitam à Missa Nova. Enquanto os primeiros são frequentemente pessoas de oração constante, de vida sóbria e voltada para Deus, com famílias numerosas, evitando até os mais leves pecados, os segundos tendem a levar uma vida mais desregrada, permeada pelo materialismo, preocupados com o corpo nas academias, usando de palavrões e participando ativamente do espírito mundano.
Esta observação não é um julgamento meramente subjetivo, mas a constatação de que Lex Orandi, Lex Credendi (A lei da oração é a lei da fé) e Lex Vivendi (a lei do viver). Uma liturgia que eleva, que aponta para o transcendente, que exige reverência e sacrifício, naturalmente molda almas mais devotas e virtuosas.
A contradição da "diversidade"
O paradoxo atinge seu ápice quando se prega a "diversidade" em praticamente todos os âmbitos — diversidade de religiões, diversidade cultural, diversidade de pensamentos —, mas se proíbe uma única expressão legítima e milenar dentro da própria Igreja: a liturgia tradicional.
Enquanto isso, dentro da Missa Nova, variações que muitas vezes beiram o profano são toleradas ou até incentivadas: "missas dos palhaços", "missas afro", "missas do vaqueiro", "missas com bateria e dança", etc. Estas adaptações, que frequentemente obscurecem a dignidade do sacrifício e a Presença Real, são permitidas, mas a Missa de todos os séculos, onde não há a menor heresia ou variação na doutrina e no rito, é proibida.
A tradição não começa em 1965
Amar e reivindicar a Missa Tradicional não é questionar o Concílio Vaticano II, nem negar a autoridade da Igreja, nem ser católicos rebeldes. É, simplesmente, usar da sinderese (a capacidade inata da razão de discernir o bem e o mal) para recusar que a Tradição comece em 1965.
É recordar que a Igreja não pode desautorizar sua própria oração multissecular sem empobrecer-se gravemente a si mesma. É reconhecer que a Sacrosanctum Concilium, embora defendendo uma adaptação da liturgia, não pedia uma ruptura, mas uma prudente evolução orgânica. E, sobretudo, é defender o direito dos fiéis de acederem a um tesouro espiritual que os santificou por dois milênios.
São Paulo nos adverte:
"Retenho o modelo das sãs palavras que de mim ouviste na fé e na caridade de Cristo Jesus. Guarda o bom depósito pelo Espírito Santo que habita em nós." (2 Timóteo 1,13-14)
A perseguição à Missa Tridentina é uma ofensa não só à sua beleza, mas ao próprio princípio da Tradição Apostólica e ao senso comum que vê na diversidade de ritos uma riqueza, e não um obstáculo. A imposição forçada de um único rito, enquanto se ignoram os problemas do mesmo e se tolera uma anarquia litúrgica em outros âmbitos, é uma estratégia que contraria a sabedoria multissecular da Igreja e só serve para aprofundar a crise de fé e a divisão entre os católicos. (Redação: Vida e Fé Católica)






