Didaque: Doutrina dos Apóstolos, primeiro catecismo
O Didaque, escrito provavelmente entre os anos 60 90, é nosso primeiro catecismo

Para o católico que zela pela Tradição, olhar para o Didaque (ou Didaché) não é apenas um exercício de arqueologia literária, mas um reencontro com as raízes puras da nossa Fé. Este documento, redigido possivelmente enquanto alguns apóstolos ainda viviam ou por seus discípulos diretos (entre os anos 60 e 90 d.C.), serve como um espelho que reflete a face da Igreja primitiva: uma Igreja que já nasceu hierárquica, sacramental e moralmente intransigente contra o mundo.
(Por Vida e Fé Católica)
O caminho da vida e o caminho da morte
O Didaque começa com uma distinção clara, sem relativismos: "Existem dois caminhos: um da vida e outro da morte. A diferença entre ambos é grande". Esta abordagem binária é a base da moral católica tradicional.
O texto é surpreendentemente profético ao condenar males que, embora antigos, flagelam a nossa modernidade com uma roupagem de "progresso". O Didaque declara explicitamente:
"Não matarás a criança no seio materno através do aborto, nem a matarás depois de nascida." (Didaque 2,2)
Numa época em que o mundo pagão (assim como o neopaganismo atual) desprezava a vida incipiente, a Igreja já se levantava como a guardiã dos inocentes. É a prova histórica de que o dogma contra o aborto não é uma "invenção" medieval, mas um mandato apostólico desde o primeiro século.
A liturgia e os sacramentos: a ordem primitiva
Diferente do que pregam certas correntes protestantes, o Didaque revela que a Igreja primitiva não era um movimento caótico de "entusiasmo espiritual", mas uma comunidade que prezava pela forma e pela ordem.
1. O Batismo
O documento prescreve a fórmula trinitária (Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo) e já demonstra a preferência pela imersão em "água viva" (corrente), mas — de forma crucial para a nossa prática — permite a infusão (derramar água sobre a cabeça) caso não haja água suficiente.
2. A Eucaristia e o Sacrifício
O Didaque é um dos primeiros registros a chamar a Eucaristia de Sacrifício (em grego, Thysia), conectando a celebração cristã à profecia de Malaquias sobre o sacrifício puro oferecido em todo o mundo. Ele estabelece uma barreira sagrada: "Ninguém coma nem beba da vossa Eucaristia se não tiver sido batizado em nome do Senhor".
3. A Oração do Senhor
O texto instrui os fiéis a rezarem o Pai Nosso três vezes ao dia, reforçando a disciplina de oração que mais tarde se consolidaria na Liturgia das Horas.
A estrutura hierárquica e a autoridade
O documento também orienta sobre como receber apóstolos e profetas, e como discernir os falsos mestres. Ele instrui as comunidades a escolherem para si bispos e diáconos que sejam homens dignos, humildes e desapegados do dinheiro. Isso desmente a tese de que a hierarquia teria surgido séculos depois; o Didaque mostra que o governo da Igreja por clérigos ordenados foi o modelo estabelecido pelos próprios Doze.
A visão dos padres da igreja
Embora não tenha sido incluído no Cânon das Escrituras (o conjunto de livros da Bíblia), o Didaque gozou de enorme prestígio. Eusébio de Cesareia e Santo Atanásio o citam como uma ferramenta de instrução essencial para os catecúmenos. Se os Padres da Igreja, que combateram as grandes heresias, viam no Didaque um guia seguro, nós, católicos de hoje, devemos vê-lo como um farol contra a confusão litúrgica e moral.
Comparativo da Prática Primitiva vs. Tradição
Tema Instrução do Didaque Prática na Tradição Católica
Aborto Condenação absoluta e explícita. Dogma imutável de defesa da vida.
Eucaristia Reservada apenas aos batizados e puros. Comunhão em estado de graça.
Jejum Quartas e sextas-feiras. Dias de penitência e paixão do Senhor.
Hierarquia Instituição de bispos e diáconos. Sucessão Apostólica e governo clerical.
O discernimento dos falsos profetas: o combate ao charlatanismo
O Didaque dedica uma seção considerável (capítulos 11 e 12) para ensinar a comunidade a distinguir entre um verdadeiro enviado de Deus e um "comerciante de Cristo" (christémporos).
Para o católico tradicional, essas regras são fascinantes porque mostram que a autoridade não era baseada apenas no carisma pessoal, mas na coerência com a vida de Nosso Senhor.
Critérios de Discernimento no Didaque:
A regra da estadia: O verdadeiro apóstolo não deveria abusar da hospitalidade. Se ele ficasse mais de dois dias ou pedisse dinheiro, era considerado um falso profeta. O foco devia ser a missão, não o conforto.
O pedido de bens: O texto é categórico: "Aquele que diz em espírito: 'Dá-me dinheiro ou outras coisas', não o escuteis". Isso ressoa fortemente hoje como um alerta contra a "teologia da prosperidade".
A vida como prova: O Didaque ensina que "pelo comportamento, se reconhecerá o falso e o verdadeiro profeta". Se um homem ensina a verdade, mas não vive o que ensina, ele é um falso profeta.
As orações eucarísticas: o "obrigado" do povo escolhido
As orações contidas nos capítulos 9 e 10 do Didaque são algumas das fórmulas litúrgicas mais antigas do mundo. Elas possuem uma estrutura que lembra as bênçãos judaicas (Berakhot), mas transfiguradas pela Nova Aliança.
A Oração sobre o Cálice e o Pão
Diferente das orações litúrgicas posteriores (como o Cânon Romano), as orações do Didaque focam na unidade da Igreja e no conhecimento revelado:
"Nós Te damos graças, Pai nosso, pela santa vinha de Davi, Teu servo, que nos revelaste por Jesus, Teu servo."
Sobre o pão partido, há uma das metáforas mais belas da eclesiologia primitiva:
"Assim como este pão partido estava disperso pelos montes e, recolhido, tornou-se um só, assim também a Tua Igreja seja reunida dos confins da terra no Teu Reino."
A Antífona do "Maranatha"
Ao final da celebração, o Didaque registra uma das aclamações mais vibrantes da Igreja:
"Venha a graça e passe este mundo!"
"Hosana ao Deus de Davi!"
"Maranatha! Amém."
Esta postura escatológica (a espera pela volta de Cristo) era o que sustentava os cristãos diante das perseguições iminentes.
Por que isso importa hoje?
Contra o Relativismo: O Didaque mostra que a Igreja nunca foi uma "democracia de opiniões", mas uma guardiã de uma verdade recebida (o Depósito da Fé).
Liturgia como Sacrifício: Ao prescrever o jejum antes da Eucaristia e a necessidade de confessar os pecados antes de oferecer o sacrifício (capítulo 14), o Didaque confirma que a Missa não é uma "refeição fraterna" comum, mas um ato sagrado que exige pureza de alma.
O Didaque (capítulos 8 e 14) define claramente como o cristão deve se comportar em relação à semana e ao Dia do Senhor, marcando uma ruptura definitiva com a sinagoga.
O jejum semanal: quartas e sextas-feiras
Diferente da mentalidade moderna, que vê o jejum como algo opcional ou apenas para a Quaresma, a Igreja primitiva o vivia semanalmente. O Didaque é rigoroso e até um pouco "combativo" na sua instrução:
"Os vossos jejuns não coincidam com os dos hipócritas. Eles jejuam na segunda e na quinta-feira; vós, porém, jejuais na quarta-feira e na sexta-feira." (Didaque 8,1)
O Porquê desses dias na Tradição:
Quarta-feira: Lembra a traição de Judas. Jejuamos em reparação à traição contra Nosso Senhor e para pedir fidelidade à nossa própria vocação.
Sexta-feira: Lembra a Crucifixão e Morte de Jesus. É o dia da penitência por excelência, onde o cristão se une ao sacrifício do Calvário.
Essa prática sobreviveu por séculos na Igreja e ainda é o pilar das ordens religiosas mais austeras e da disciplina tradicional da Igreja, reforçando que a vida cristã é, essencialmente, uma vida de mortificação dos sentidos.
O dia do Senhor (Dominica): o novo sábado
O Didaque reafirma a transição do Sábado judaico para o Domingo cristão, chamando-o de "Dia do Senhor". Este é o dia em que a Igreja se reúne para a "Fração do Pão".
As Três Condições para o Domingo:
Para que a reunião dominical fosse válida e frutuosa, o Didaque estabelecia critérios que hoje chamamos de disposição espiritual:
A Fração do Pão e Ação de Graças: O centro do Domingo é a Eucaristia. Não é um dia de descanso vazio, mas de culto sacrificial.
Confissão dos Pecados: "Reuni-vos no dia do Senhor, parti o pão e dai graças, depois de terdes confessado vossos pecados, para que o vosso sacrifício seja puro". Aqui vemos a semente do Sacramento da Confissão: a pureza da alma como requisito para a Comunhão.
Reconciliação Fraterna: O texto proíbe terminantemente que alguém brigado com seu próximo participe da assembleia até que se reconcilie, para não "profanar o sacrifício".
A oração constante e o ritmo de vida
Além dos dias de jejum e do Domingo, o Didaque prescreve que o Pai Nosso seja rezado três vezes ao dia. Isso criou o que hoje conhecemos como o ritmo do Angelus ou das Horas Canônicas. O cristão não reza "quando sente vontade", mas obedece a uma regra de oração (a Lex Orandi).
O Didaque nos ensina que ser cristão não é um sentimento vago, mas o seguimento de uma Doutrina (do latim Doctrina, ensino). Ele nos chama de volta à seriedade do jejum, à santidade do matrimônio e à reverência diante do Mistério Eucarístico. Em um mundo que tenta diluir a verdade, o "Primeiro Catecismo" nos lembra que o Caminho da Vida é estreito, mas é o único que conduz a Deus. (Redação: Vida e Fé Católica)
Se desejamos restaurar a Fé, precisamos restaurar a devoção mariana em nossas casas.
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