A tirania contra a Tradição: o "delito" de rezar como os Santos

26/02/2026

Aconteceu na arquidiocese brasileira de Maceió

A notícia vinda da Arquidiocese de Maceió não é apenas um golpe jurídico; é um sintoma doloroso de uma crise de identidade que atinge as mais altas esferas da hierarquia eclesiástica. Ao ameaçar com a pena máxima da Igreja — a excomunhão — sacerdotes que ousam celebrar o Rito Milenar fora de um único "gueto" autorizado, o Arcebispo Dom Carlos Alberto Breis Pereira ultrapassa as fronteiras da prudência pastoral para entrar no campo do autoritarismo canônico.

(Por Vida e Fé Católica)

Uma desproporção draconiana

Consideremos os fatos com a gravidade que merecem:

  • A Extensão: Uma arquidiocese de 8.500 km² e quase 2 milhões de almas.

  • A "Oferta": Uma única Missa aos domingos, em uma capela hospitalar.

  • A Punição: Excomunhão automática (latae sententiae) por cisma para quem celebrar fora desse limite.

Tratar a celebração da Missa que santificou a Igreja por mais de um milênio como um "ato de cisma" é uma inovação jurídica sem precedentes e sem amparo na sã doutrina.

O abuso do Direito Canônico

A nota arquidiocesana cita os cânones 751 e 1364 § 1. No entanto, qualquer seminarista fiel à letra da lei sabe que:

  1. Cisma é a recusa de submissão ao Sumo Pontífice ou da comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos.

  2. Celebrar a Missa Tridentina (o Rito Romano Clássico) não é, nem nunca foi, um ato de ruptura com o Papa.

Se a celebração de um rito aprovado por inúmeros Papas e Santos fosse "cisma", teríamos que admitir o absurdo de que a Igreja viveu em estado de cisma durante séculos. Como bem apontou o portal Paix Liturgique, a tentativa de classificar a Lex Orandi tradicional como algo "fora da fé da Igreja" é uma impossibilidade teológica. Se o rito de São Gregório Magno e São Pio V não expressa a fé católica, então a Igreja teria errado por 1.500 anos — uma conclusão que beira a heresia.

A hermenêutica da ruptura em prática

O que vemos em Maceió é a aplicação radical da lógica de Traditionis Custodes. Ao afirmar que o rito novo é a "única expressão" da fé, abre-se uma brecha perigosa para perseguir quem mantém a fidelidade ao patrimônio litúrgico da Cristandade.

"O que as gerações anteriores consideravam sagrado, permanece sagrado e grande também para nós." — Papa Bento XVI

A tentativa de transformar uma questão de disciplina litúrgica em um crime contra a unidade da Igreja (cisma) é uma distorção que fere a caridade e a justiça. Enquanto abusos litúrgicos de toda sorte ocorrem sem qualquer sanção em diversas dioceses, reserva-se o "chicote do Direito" apenas para aqueles que buscam a reverência e a tradição.

Um apelo à consciência

A excomunhão é o remédio extremo para pecados gravíssimos. Usá-la como ferramenta de gestão administrativa para suprimir a Missa de Sempre é uma profanação da finalidade da lei canônica, que deve visar sempre a salus animarum (a salvação das almas).

Os fiéis e sacerdotes de Maceió, e de todo o Brasil, não podem ser tratados como cidadãos de segunda classe ou criminosos por amarem a liturgia que formou a civilização cristã. Rezemos para que o bom senso e a verdadeira unidade — que não exclui o passado — retornem à nossa amada Igreja.

O contraste escandaloso: entre o rigorismo e a permissividade

Abaixo, comparamos a situação da liturgia tradicional em Maceió com as práticas amplamente toleradas (e por vezes incentivadas) em solo brasileiro:

A perseguição ao "sagrado" vs. a celebração do "profano"

Enquanto um sacerdote em Maceió arrisca a excomunhão por rezar em latim voltado para o sacrário (Ad Orientem), em diversas dioceses do país as chamadas "Missas Afro" e "Missas do Vaqueiro" introduzem elementos puramente seculares e até rituais de religiões de matriz africana dentro do presbitério.

  • O Contradomínio: Na Bahia, não é raro ver o uso de atabaques e a aspersão de "água de cheiro" por baianas caracterizadas, práticas que a Instrução Redemptionis Sacramentum claramente proíbe como abusos graves, mas que raramente geram notas judiciais de bispos.

A ideologização da liturgia

A restrição draconiana ao Rito Gregoriano contrasta com a total liberdade dada às Missas da Teologia da Libertação. Nestas celebrações:

  • O Altar é frequentemente substituído por símbolos políticos.

  • A Eucaristia é tratada mais como um "banquete comunitário de resistência" do que como o Santo Sacrifício do Calvário.

  • O Resultado: Nestes casos, a "unidade" com Roma e a Lex Orandi parecem ser opcionais, e o termo "cisma" nunca é pronunciado, apesar do desvio doutrinário evidente.

As "Missas de Inclusão" e a Moral Católica

Recentemente, o surgimento de missas voltadas especificamente para grupos de militância LGBTQIA+ tem gerado perplexidade. Frequentemente, nestas celebrações, a doutrina moral da Igreja sobre a castidade e o matrimônio é omitida ou relativizada.

  • A Incoerência: Um fiel que busca a Missa de Sempre para salvar sua alma é isolado em um único horário dominical numa capela de hospital. Já grupos que desafiam abertamente a antropologia cristã encontram portas abertas e acolhida litúrgica "personalizada" em grandes centros urbanos.

Tabela comparativa: A balança da justiça eclesial

Aspecto Missa Tridentina (Rito de Sempre)                      "Missas Inculturadas" / Ideológicas
Fundamentação Milenar, codificada por Santos e Papas. Recentista, baseada em sociologia ou política.
Punição por Erro Excomunhão Automática (em Maceió) Raramente uma advertência privada.
Alcance Geográfico Restrita a uma capela (o "Gueto").    Espalhada por paróquias, ginásios e ruas.
Fidelidade à Fé Garante a presença real.                            Frequentemente obscurece o sagrado em prol do social.

A lei como arma ideológica

O que se depreende desse cenário é que a lei canônica em Maceió não está sendo usada para proteger a fé, mas para extirpar uma sensibilidade espiritual. Se o critério para a excomunhão fosse a "fidelidade à expressão única da lex orandi", as prateleiras dos tribunais eclesiásticos estariam cheias de processos contra sacerdotes que transformam a Missa em show, comício ou ritual sincrético.

Ao punir o rito que não contém erros, enquanto se ignora o rito que abraça o mundo, a hierarquia corre o risco de confirmar a tese tradicionalista: a de que o problema não é a "desobediência", mas sim o fato de a Missa Antiga ser um lembrete vivo de verdades que muitos preferiam esquecer. (Redação: Vida e Fé Católica)