A Quarta-feira de Cinzas na Bíblia: Uma tradição de raízes proféticas
As cinzas são símbolos de arrependimento e penitência

Para o católico fiel à Tradição, a imposição das cinzas não é um mero simbolismo exterior ou uma invenção medieval, mas um rito profundamente ancorado na Revelação Divina. Ao iniciarmos a Quaresma, a Igreja nos convoca a reviver um gesto que, desde o Antigo Testamento, sinaliza a contrição do coração e a urgência da penitência diante da justiça de Deus.
(Por Vida e Fé Católica)
O Fundamento Bíblico: As cinzas como sinal de arrependimento
A Sagrada Escritura é pródiga em exemplos onde o uso de cinzas e o "sentar-se no pó" representam o estado de uma alma que reconhece sua miséria e clama pela misericórdia divina.
A Conversão de Nínive (Jonas 3)
O exemplo mais emblemático da eficácia penitencial das cinzas encontra-se no livro do Profeta Jonas. Ao ouvir a advertência de que a cidade seria destruída, o rei de Nínive levantou-se de seu trono, despiu-se de suas vestes reais, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza (Jonas 3, 6).
"Deus viu as suas obras, como se convertiam do seu mau caminho; e Deus aplacou-se do mal que tinha dito que lhes havia de fazer, e não o fez." (Jonas 3, 10).
Aqui, a cinza é o selo visível de uma mudança invisível: a metanoia (conversão) que desvia o castigo divino.
O Sinal de proteção (Ezequiel 9, 1-6)
Em uma visão profética terrível, Ezequiel descreve a marcação dos fiéis antes da punição de Jerusalém. O Senhor ordena a um homem vestido de linho:
"Passa pelo meio da cidade... e marca com um sinal (um Tau) a testa dos homens que gemem e que choram por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela." (Ezequiel 9, 4).
Para a Tradição Católica, esse sinal na testa — que o texto original sugere ser a letra hebraica Tau, em formato de cruz — prefigura a imposição das cinzas. É o sinal daqueles que pertencem a Deus e que, pelo espírito de penitência, são poupados do extermínio espiritual.
Outras referências escriturísticas
Jó 42, 6: "Por isso eu me retrato, e faço penitência no pó e na cinza."
Jeremias 6, 26: "Filha do meu povo... revolve-te na cinza; faze pranto como por um filho único."
Mateus 11, 21: O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo ratifica a prática ao dizer que, se em Tiro e Sidônia tivessem sido feitos os milagres feitos na Judeia, eles teriam feito penitência "em saco e cinza".
A voz dos Padres e a história
A Igreja Primitiva não tardou a formalizar esses gestos bíblicos. Nos primeiros séculos, as cinzas eram parte do rito da Penitência Pública. Aqueles que haviam cometido pecados graves eram aspergidos com cinzas e expulsos temporariamente da assembleia, emulando a expulsão de Adão do Paraíso.
Tertuliano (séc. II): Em sua obra De Paenitentia, descreve que o penitente deve "viver no rigor do traje e da mesa, e prostrar-se em saco e cinza".
São Gregório Magno (séc. VI): Foi ele quem ajudou a organizar o período da Quaresma começando na quarta-feira, para totalizar os 40 dias de jejum (excluindo os domingos). Ele exortava os fiéis a lembrarem-se de sua condição mortal: "Lembra-te, homem, que és pó e ao pó voltarás".
Santo Agostinho: Frequentemente falava da humilhação das cinzas como um remédio contra o orgulho, o pecado original que nos afastou de Deus.
Ao recebermos as cinzas em forma de cruz, o católico tradicional reafirma sua genealogia bíblica. Não está seguindo uma "tradição de homens", mas obedecendo a um imperativo divino que atravessa os séculos: sem penitência, não há salvação. A cinza nos recorda nossa fragilidade biológica, mas a forma de Cruz em que ela é imposta nos recorda nossa esperança teológica. (Redação: Vida e Fé Católica)






