A prisão de Maduro sob o olhar do Catolicismo Tradicional

05/01/2026

Catolicismo tradicional não passa a mão na cabeça de ditadores

A prisão de Nicolás Maduro transcende a mera análise geopolítica ou jurídica secular. Para o catolicismo tradicional, que observa os eventos do mundo sob a luz perene da Lei Divina, da Doutrina Social da Igreja e das Sagradas Escrituras, este cenário apresenta um caso complexo de teologia moral aplicada à política. Não se trata apenas da queda de um líder político, mas do julgamento moral de um regime que parece ter se desviado fundamentalmente dos propósitos para os quais a autoridade temporal é constituída por Deus.

(Por Vida e Fé Católica)

A perspectiva tradicional católica não celebra a desordem, mas clama pela verdadeira ordem, que só pode ser estabelecida sobre a justiça e a verdade. Abaixo, analisamos os pontos cruciais desta situação sob este prisma.

1. A Responsabilidade do Governante e o Descuido do Povo

A tradição católica, desde São Paulo (Romanos 13) até Santo Tomás de Aquino, ensina que toda autoridade vem de Deus e que o propósito do governo civil é promover o bem comum temporal, facilitando, em última análise, a salvação das almas. O governante é um vigário da ordem de Deus na terra, um "pastor" do seu povo.

Quando um líder preside o colapso econômico e uma crise humanitária sem precedentes, resultando na fome, na miséria e no êxodo de milhões de seus concidadãos — como observado na Venezuela —, ele falha gravemente em seu dever primário. Este "descuido" não é apenas incompetência política; é um pecado grave de omissão e uma violação direta da caridade e da justiça. A Igreja não pode permanecer silente quando o rebanho é disperso e faminto por culpa de seus próprios pastores terrenos.

2. O Envolvimento com o Mal Intrínseco: O Narcotráfico

As acusações de envolvimento do regime com o narcotráfico adicionam uma camada de gravidade moral extrema. O tráfico de drogas não é apenas um crime civil; é uma atividade intrinsecamente má. Alimenta o vício, destrói famílias, financia a violência e corrompe a própria estrutura da sociedade.

Se um governante se associa a tal flagelo, ele se torna um agente da morte e não da vida. Do ponto de vista moral, isso retira qualquer aura de respeitabilidade do cargo e coloca o líder em oposição direta à lei de Deus, que ordena "Não matarás". Um "narco-estado" é uma abominação moral que clama aos céus.

3. Soberania Nacional, Fraude e Legitimidade

O catolicismo tradicional preza o princípio da soberania nacional, entendendo que as nações têm o direito de se autogovernar sem interferências indevidas. Contudo, este princípio não é um absoluto teológico; ele está subordinado à lei moral e ao bem comum. A soberania não é um escudo para a tirania.

A questão da fraude eleitoral é central aqui. A legitimidade de um governo moderno, embora a autoridade venha de Deus, passa pelo consentimento do povo através de meios justos. Se um regime se mantém no poder através da mentira institucionalizada (fraude), ele fere o Oitavo Mandamento e perde sua legitimidade moral de exercício. Um governo baseado na mentira não pode reclamar os direitos de uma soberania autêntica, pois a soberania pertence à nação, não a um grupo que a sequestrou.

4. A Responsabilidade de Proteger e a Solidariedade Cristã

Diante de um regime que sistematicamente viola os direitos naturais de seus cidadãos e que perdeu sua legitimidade moral, surge a questão da intervenção. A Doutrina Social da Igreja, equilibrando a soberania com a solidariedade universal, reconhece a "Responsabilidade de Proteger".

A comunidade internacional, movida por um princípio de caridade política, não pode cruzar os braços enquanto um povo é oprimido por um Estado que deveria protegê-lo. Quando o Estado se torna o agressor, o princípio da não-intervenção cai por terra diante do dever maior de socorrer o próximo em perigo extremo. A Igreja apoia mecanismos que busquem restaurar a justiça, preferencialmente pacíficos, mas sem descartar a necessidade de responsabilização firme dos tiranos.

5. O Juízo das Escrituras sobre a Opressão

O catolicismo tradicional lê a história atual com as lentes da Revelação. As ditaduras modernas, com seus mecanismos de controle e opressão aos mais vulneráveis, encontram condenação severa nas Sagradas Escrituras. O que vemos hoje na Venezuela ecoa os avisos dos profetas e do próprio Cristo:

  • A condenação das leis injustas: O profeta Isaías lança um "Ai" sobre aqueles que "decretam leis injustas e escrevem decretos opressivos, para privar os pobres de seus direitos" (Is 10:1-2). Um sistema legal usado para manter o poder e esmagar a dissidência é uma afronta a Deus.

  • A denúncia da hipocrisia: Nosso Senhor Jesus Cristo foi severo com os líderes que impunham fardos insuportáveis ao povo enquanto viviam no privilégio: "Atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem sobre os ombros dos homens; mas eles nem com o dedo querem movê-los" (Mateus 23:4). Esta é a imagem perfeita da elite de um regime autoritário vivendo na opulência enquanto o povo busca restos de comida no lixo.

  • A violência e o roubo institucionalizado: Miquéias condena aqueles que usam o poder do Estado para roubar a herança do povo (Mq 2:1-2), e Amós profetiza o castigo divino inevitável sobre as nações que oprimem seus vizinhos e seu próprio povo com "trilhos de ferro" (Am 1:3-5).

  • A face demoníaca do poder absoluto: O livro do Apocalipse nos alerta sobre o perigo do Estado que se diviniza, a "besta" que exige adoração e cujo poder é marcado pela blasfêmia (Ap 13:1-10). Regimes que tentam substituir Deus pela lealdade ao partido ou ao líder supremo manifestam este espírito anticristão.

Conclusão

Para o catolicismo tradicional, a prisão de Nicolás Maduro não deve ser vista com um espírito de vingança partidária, mas como um potencial ato de justiça restaurativa. A paz, como ensina Santo Agostinho, é a "tranquilidade da ordem". Não há ordem onde impera a fome, a mentira da fraude eleitoral e o pecado do narcotráfico.

A Igreja reza pela conversão dos pecadores, inclusive dos tiranos, mas também clama pela libertação dos oprimidos. Se a justiça humana, falha como é, puder servir como instrumento para cessar o sofrimento de um povo católico como o venezuelano e restaurar uma ordem moral mínima, tal movimento deve ser visto como consonante com os princípios da lei natural e da caridade cristã. (Redação: Vida e Fé Católica)