A Missa, tesouro da fé: O Evangelho, a voz de Cristo na liturgia

04/01/2026

O Evangelho é a boca de Cristo», afirmava santo Agostinho. A liturgia romana tem tomado esta verdade com toda a sua radicalidade. 

Na Missa tradicional, a proclamação do Evangelho não é uma simples leitura nem um momento didático mais, mas a presença viva de Cristo que fala à sua Igreja. Por isso, os ritos que rodeiam o canto do Evangelho estão carregados de uma solenidade singular: honras, gestos e sinais que manifestam que não é um homem quem fala, mas o mesmo Verbo de Deus.

(Por INFOVATICANA)

O Evangelho: a Palavra do Verbo

Santo Agostinho exortava os fiéis a escutar o Evangelho como se Deus mesmo se dirigisse a eles. E não é uma metáfora. Cristo é o Verbo eterno do Pai, e o Evangelho é a palavra do Verbo, a Verba Verbi. Por isso, na liturgia, o Evangelho é Cristo. Esta convicção explica a extraordinária veneração que a Igreja tributa ao livro dos Evangelhos e a solenidade com a qual se proclama o seu texto. Através das Sagradas Escrituras, inspiradas por Deus, o Senhor continua falando aos homens para a sua salvação.

O Evangeliário: beleza ao serviço da verdade

O Evangeliário, que contém os passagens dos quatro Evangelhos, costuma estar ricamente ornamentado. A beleza da sua encadernação e das suas iluminuras não responde a um gosto estético superficial, mas à consciência de que se trata de um livro santo, portador da Palavra divina. Nele se reúnem os Evangelhos de são Mateus, simbolizado pelo homem; são Marcos, pelo leão; são Lucas, pelo touro; e são João, pela águia, sinal da altura teológica do seu Evangelho. A disposição destes textos e o seu ciclo de leitura afundam as suas raízes na mais antiga tradição da Igreja. Se são Gregório Magno regressasse hoje, escutaria nas nossas igrejas as mesmas leituras proclamadas nas basílicas romanas do século VII, segundo um ciclo litúrgico que tem evangelizado continentes inteiros e tem formado gerações de santos.

O ministério do diácono e a honra do altar

Desde o século IV, corresponde ao diácono, revestido com a dalmática, a honra de cantar o Evangelho. Antes de o fazer, deposita o Evangeliário sobre o altar, que representa o próprio Cristo, manifestando assim a unidade inseparável entre o Senhor e a sua Palavra. Nada pode ser colocado sobre a pedra do altar salvo as oferendas, o Santíssimo Sacramento ou o livro dos Evangelhos, precisamente porque este recebe as mesmas honras que Cristo.

Antes de o proclamar, o diácono pede ao sacerdote a bênção e reza de joelhos a antiga oração do Munda cor meum, suplicando que o seu coração e os seus lábios sejam purificados, como os do profeta Isaías pelo carvão ardente do serafim. Dispõe-se assim a pronunciar as Verba Verbi, as palavras mesmas do Verbo. Tomando o Evangeliário do altar, reconhece que não fala por si mesmo, mas que recebe a palavra de Cristo para a transmitir fielmente.

A procissão do Evangelho e a sua orientação missionária

A proclamação do Evangelho é precedida de uma procissão solene. Dois acólitos portam círios, símbolo da dupla natureza —humana e divina— de Cristo; segue-se o turíbulo, sinal de adoração; depois o subdiácono e, finalmente, o diácono com o livro santo. A procissão dirige-se ao lado norte do presbitério, onde se canta o Evangelho. Após o oriente —figura de Cristo— e o sul —símbolo de Israel—, o norte representa o mundo pagão, as trevas ainda não iluminadas pela fé. Para essa direção se proclama o Evangelho, anunciando que a Boa Nova está destinada a todas as nações.

Os sinais da cruz e a resposta dos fiéis

Antes da proclamação, o diácono traça o sinal da cruz sobre o livro e depois sobre si mesmo: na fronte, nos lábios e no coração. Estes gestos expressam que a Palavra de Deus deve ser acolhida com a inteligência, proclamada sem temor e guardada com amor. Os fiéis respondem: «Glória a Ti, Senhor», recordando que a proclamação do Evangelho é, antes de tudo, um ato de glorificação de Deus, razão pela qual se canta primeiro em latim, língua sagrada da Igreja.

A veneração final do livro santo

Concluído o canto do Evangelho, o subdiácono leva o Evangeliário diretamente ao sacerdote, atravessando o presbitério sem genuflexão, como se portasse o Santíssimo Sacramento. O sacerdote beija então o livro no lugar marcado pela cruz. Este gesto é ao mesmo tempo expressão de comunhão com a doutrina evangélica e ato de adoração ao mesmo Cristo, cuja Palavra acaba de ressoar. Desde antigo, beijar é um gesto profundamente religioso: ad-orare significa literalmente "levar à boca", sinal de veneração suprema.

A proclamação do Evangelho é um dos momentos mais altos da Missa. Nela, o próprio Cristo fala à sua Igreja, instrui-a e chama-a à conversão. Por isso, a liturgia a rodeia de honras, sinais e gestos que educam a fé e dispõem a alma a acolher a Palavra divina. (Fonte: INFOVATICANA)

Aparentemente, tanto Roma quanto a FSSPX percebem que a nova Missa representa uma nova religião (como deu a entender recentemente cardeal Roche).